Papa: construir “casas de paz”, onde a hostilidade se neutralize com o diálogo
10 de setembro de 2026
Salvatore Cernuzio – Vatican News
“Construtores de ‘casas de paz’”, onde “se aprende a neutralizar a hostilidade por meio do diálogo, onde se pratica a justiça e se cultiva o perdão”. Usando metáforas, mas oferecendo orientações concretas, o Papa Leão XIV dirigiu-se aos participantes do evento “Desarmados e Desarmando a Paz: A Mudança de Paradigma Emergente da Igreja para a Não Violência do Evangelho” . Trata-se da primeira conferência do Instituto Católico para a Não Violência que teve início nesta quarta-feira, 9 de setembro, e se estende até sexta-feira (11/09), no Seraphicum, em Roma, promovida pela Pax Christi International . Ou seja, o movimento católico internacional que, inspirado também pelo olhar profético de Pe. Tonino Bello, fez da promoção da paz e da não violência sua missão prioritária.
O encontro reúne em Roma teólogos, responsáveis pastorais, agentes da paz, educadores, profissionais e todos aqueles que desejam explorar como a não violência evangélica pode atingir o cerne da vida e do ensinamento católico. Eles vêm de diversos países e de contextos afetados por conflitos. Antes de ouvir a intervenção do cardeal Charles Maung Bo, porta-voz daquela Mianmar ferida por uma guerra civil persistente, violências e deslocamentos, todos os presentes no Seraphicum receberam a saudação e a bênção do Papa, transmitidas por dom Giovanni Ricchiuti, presidente da Pax Christi Itália .
No telegrama, lido no início dos trabalhos e assinado pelo secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, Leão XIV “exorta a continuar a missão de promover no mundo uma cultura de paz, justiça e reconciliação, enraizada no Evangelho e testemunhada na vida”, de modo a “nos tornarmos construtores de ‘casas de paz’, onde se aprende a neutralizar a hostilidade por meio do diálogo, onde se pratica a justiça e se cultiva o perdão”. Com esses objetivos e sentimentos, o Pontífice confia os dias de reflexão e discussão à Virgem Maria, rainha da Paz.
O cardeal Bo, em discurso, falou da necessidade de “um novo paradigma”, entendido como uma reformulação fundamental da maneira como a Igreja compreende a paz e a legítima defesa. Para o cardeal birmanês, a não violência não deve ser entendida como passividade ou recusa da responsabilidade de proteger as pessoas, mas sim como uma resposta eficaz à violência em um mundo cada vez mais marcado por conflitos armados e novas tecnologias militares. “As estratégias não violentas não são uma falta de defesa; são uma forma de defesa mais eficaz”, afirmou Bo. Hoje, acrescentou ele, "colocamos em prática a legítima defesa por meio da defesa civil, da proteção civil desarmada e da resistência ativa não violenta”.
O arcebispo de Yangon pediu, portanto, maiores investimentos “na diplomacia, na justiça restaurativa, nas redes de paz para o alerta precoce e na redução sistemática da tensão”, além de abordagens capazes de proteger a dignidade humana sem reproduzir a lógica da violência. Por sua vez, a Igreja, assegurou ele, “oferece um quadro de defesa que protege efetivamente a dignidade humana, em vez de destruir a infraestrutura da vida”. “A verdadeira legítima defesa deve ser desarmada em seus métodos e desarmante em seus efeitos”, acrescentou, lembrando a invocação do Papa Leão, no dia da sua eleição, de uma “paz desarmada e desarmante”.
Na prática, para o cardeal Bo, isso significa superar a ideia da não violência como vocação opcional ou secundária e colocá-la no centro da vida e do ensinamento católico. Referindo-se à experiência da Igreja em Mianmar, ele descreveu um povo que, apesar do que sofre, continua a proclamar: “a paz é possível, a paz é o único caminho…”. “A não violência não significa fugir do perigo ou aceitar a injustiça”, afirmou o cardeal, “essa abordagem exige mais coragem do que recorrer às armas para resolver os problemas. A não violência não é para covardes”.
Citando o exemplo de Jesus Cristo e relembrando o legado de figuras como Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr., o cardeal Bo concluiu: “uma paz desarmada na sociedade é impossível sem uma paz desarmante na alma”. O que, por outro lado, é possível é “rejeitar o medo, o ódio, a desumanização e o desejo de vingança que alimentam os ciclos de violência”.
A conferência — que faz parte de uma iniciativa internacional de 10 dias iniciada em 2 de setembro com um programa intensivo de formação — continuará também nesta quinta-feira, 10 de setembro. No dia 11, ela será encerrada simbolicamente com uma peregrinação espiritual a Assis, seguindo os passos de São Francisco e Santa Clara.
Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui .
Fonte: Vatican News
Ver notícia oficial