Padre Piero Coda: a urgência da crise ecológica interpela a humanidade
Vaticano

Padre Piero Coda: a urgência da crise ecológica interpela a humanidade

02 de setembro de 2026

por Piero Coda *

Diante da urgência da crise ecológica que interpela a família humana, oferecer uma reflexão que estimule a redescobrir e valorizar “o fundamento teológico do cuidado da Casa comum, para além da situação de extrema gravidade em que nos encontramos” ( n. 6 ). Esse é o objetivo do último documento elaborado pela Comissão Teológica Internacional, agora publicado. Um texto que certamente não pretende ser exaustivo e muito menos dar a última palavra sobre o assunto, mas que busca propor algumas linhas úteis de aprofundamento que brotam, à luz da fé e de sua inteligência no discernimento dos sinais dos tempos, da consciência de que “a custódia e a salvaguarda da Casa comum estão inscritas no desígnio de Deus sobre a criação” ( ibid. ).

O primeiro dos três capítulos em que se articula o documento concentra-se na mensagem que emana do próprio cerne da fé cristã e que, hoje mais do que nunca, se revela decisiva para um cuidado “responsável e fraterno” da criação: o rosto trinitário de Deus revelado em Cristo. Da contemplação desse rosto – como o Papa Francisco enfatizou repetidamente – decorre que “na formação de uma cultura de inspiração cristã, a ênfase principal seja colocada na descoberta da marca trinitária da criação”, valorizando “o caráter relacional da criação como um princípio orientador fundamental de uma ecologia integral” ( n. 33 ). Trata-se de uma verdade firmemente ancorada na revelação e amplamente ilustrada pela grande tradição espiritual — basta pensar em São Francisco de Assis e em São João da Cruz — e teológica: como testemunham, entre outros, quatro eminentes Doutores da Igreja, como Santo Agostinho, Santa Hildegarda de Bingen, São Boaventura de Bagnoregio e Santo Tomás de Aquino, cujos ensinamentos são expressamente citados no documento. Esse precioso legado, retomado e relançado pela teologia nas últimas décadas, é hoje destacado e desenvolvido em sua relevância estratégica, inclusive no plano prático, pela Doutrina Social da Igreja. O Papa Leão XIV lembrou isso na encíclica Magnifica Humanitas : se, de fato, o Deus vivo, Pai, Filho e Espírito Santo, é “amor em relação”, toda pessoa humana é “constitutivamente feita para a relação”, tendo sido concebida e desejada por Deus à sua imagem e semelhança “para entrar em uma história de comunhão com Ele, com os outros e com a criação” ( MH, n. 48 e 50 ).

02/09/2026 O cuidado com a Criação é uma questão teológica A Comissão Teológica Internacional publica o documento “Cuidar da nossa Casa comum”, que convida a uma “resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário”. A questão ecológica é ... A uma releitura, sob essa perspectiva, das relações constitutivas do ser humano, de seu significado específico e de sua interconectividade, é dedicado o segundo capítulo do documento, que relê as primeiras páginas do livro do Gênesis para discernir seu significado e alcance à luz do evento de Jesus Cristo atestado pelo Novo Testamento e interpretado pela Tradição da Igreja. Daí resulta, em toda a sua amplitude, a proposta confiável e extremamente atual de uma antropologia integral que transcende a alternativa entre o antropocentrismo predatório e o biocentrismo radical ou ecocentrismo, que hoje, muitas vezes, disputam o campo. Se o primeiro é, de fato, promovido por um paradigma tecnocrático que, de diversas formas, pretende impor-se violentamente — com consequências devastadoras e inaceitáveis para os mais pobres e para o meio ambiente, que estão à vista de todos —; o segundo, em reação a essa situação e na busca por uma solução, corre o risco de colocar entre parênteses e até mesmo de ignorar o lugar e o papel específico do ser humano no universo. Nesse contexto, a visão cristã destaca como a singularidade do ser humano, plenamente revelada em Cristo como “primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8,29 ) e primícia dos “novos céus e da nova terra, nos quais a justiça terá morada permanente” (cf. 2 Pe 3,13), se expressa na dignidade e na missão recebidas de Deus, que o comprometem a “cuidar da criação, cuja saúde planetária contribui para sua própria realização pessoal e comunitária” (n. 102). O terceiro capítulo esboça, por fim, as linhas da espiritualidade ecológica que brota da revelação e que “encontra sua inspiração mais profunda na celebração da Eucaristia” (n. 107); para, em seguida, delinear os princípios éticos fundamentais que devem inspirar e orientar, tanto no âmbito pessoal quanto social, o cuidado da casa comum. Em conclusão, destaca-se, sob o signo da esperança, que “um olhar de fé sobre a crise ecológica em que vivemos nos ajuda de maneira decisiva a compreender tanto as raízes teológicas que estão na sua origem quanto as extraordinárias potencialidades teologais que constituem o recurso para enfrentá-la e superá-la de maneira positiva” (n. 142).

01/09/2026 Dia da Criação, o Papa: aquilo que foi usado para destruição seja orientado para a vida Postagem no X de @Pontifex por ocasião do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, celebrado esta terça-feira, 1º de setembro, início do Tempo da Criação, que termina em 4 de ... Na economia global do documento e como resultado da abordagem teológica que o inspira, reveste-se de particular importância a proposta de “entender o pecado contra o meio ambiente de maneira análoga à forma como se consolidaram progressivamente as noções de pecado social e de estruturas de pecado” (n. 95), ou seja, como «pecado contra a criação e contra o Criador […] que nos confiou o mandato e a missão de custodiar, e até mesmo de aperfeiçoar, a Casa comum» (n. 97). Com isso, destaca-se a seriedade radical da “virada ecológica” que hoje interpela a consciência, exigindo uma conversão que, para desdobrar toda a sua eficácia nos âmbitos cultural, social, econômico e político, requer, antes de mais nada, que se expresse no plano espiritual e religioso. Nessa mesma perspectiva, destacam-se o estilo e o método marcados pelo diálogo com os quais, partindo do cerne do kerigma evangélico e da doutrina católica, o tema em questão é apresentado: em primeiro lugar — seguindo os passos traçados pela Laudato sì — levando em conta a contribuição significativa proveniente da tradição do Oriente cristão e das Igrejas ortodoxas contemporâneas; mas também, em segundo lugar, pelos recursos positivos oferecidos pelas diversas religiões; e, não menos importante, valorizando — por meio de uma abordagem respeitosa dos diferentes estatutos epistêmicos e dos procedimentos metodológicos específicos — os dados adquiridos pelo conhecimento científico e as questões levantadas pelo pensamento filosófico empenhado na busca da verdade ontológica do real e aberto à transcendência. Em última análise, uma contribuição para incentivar, em várias frentes, mas com um empenho coerente e convergente de reforma do pensamento e da prática iluminados a partir do coração da fé cristã, o “discernimento compartilhado capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso” a que nos convida Leão XIV ( cf. MH n. 6 ).

* Secretário-Geral da CTI

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui .

Fonte: Vatican News

Ver notícia oficial