Mosteiro de Grijó: quatro séculos de fé, patrimônio e tradição
10 de setembro de 2026
Vatican News
A comunidade de São Salvador de Grijó, em Vila Nova de Gaia, na Diocese do Porto, celebrou os 400 anos da primeira Missa na atual igreja do Mosteiro de Grijó, unindo memória, fé e patrimônio. O aniversário foi assinalado em 28 de agosto de 2026, festa de Santo Agostinho, com uma Eucaristia Solene de Ação de Graças presidida pelo bispo do Porto, D. Manuel Linda.
A celebração recordou um acontecimento ocorrido em 28 de agosto de 1626, quando D. Sebastião da Graça, prior-geral da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, presidiu à passagem da comunidade religiosa da antiga igreja para a nova, em uma cerimônia realizada na nova capela-mor. A primeira pedra dessa capela havia sido lançada em 1612, dentro de um amplo projeto de reconstrução do complexo monástico iniciado no século XVI.
26/08/2026 400 anos da primeira Missa na Capela-mor do Mosteiro de S. Salvador de Grijó A data "assinala é um momento de grande responsabilidade simultaneamente na preservação deste legado e na transmissão, às gerações futuras, do excecional valor histórico e ... A história do Mosteiro de São Salvador de Grijó, porém, é muito mais antiga. Segundo o Patrimônio Cultural de Portugal, suas origens remontam a 922, quando foi fundado em Muraceses pelos clérigos Guterre e Ausindo Soares. Em 938, a comunidade adotou a regra e o hábito de Santo Agostinho. O mosteiro foi transferido para a atual localização em 1112, e uma nova igreja foi posteriormente consagrada pelo bispo do Porto.
No século XVI, o antigo complexo encontrava-se em estado de ruína. A partir de 1572, o arquiteto Francisco Velasquez foi encarregado de elaborar o projeto de reconstrução. As obras avançaram durante décadas: em 1600 já estavam concluídas duas alas do claustro, o refeitório e a sala do capítulo, enquanto a construção da igreja prosseguiu até o século XVII. A capela-mor seria fechada em 1629, três anos depois da celebração cuja memória está sendo comemorada.
O mosteiro conserva também importantes testemunhos da história portuguesa. Entre eles está o túmulo de D. Rodrigo Sanches, filho do rei D. Sancho I, cujo sarcófago românico, datado do século XIII, permanece na igreja. O túmulo é classificado como Monumento Nacional desde 1910, enquanto o conjunto do Mosteiro de Grijó é protegido como Imóvel de Interesse Público.
A celebração dos 400 anos, portanto, não representa apenas a recordação de uma construção. Para a comunidade paroquial e para a Diocese do Porto, o jubileu constitui uma oportunidade para reconhecer uma história de mais de mil anos de presença cristã e para valorizar um patrimônio que continua integrado na vida religiosa local. A própria Diocese registra a Igreja do Mosteiro como espaço de celebrações e encontros pastorais da comunidade de Grijó.
Hoje, o Mosteiro de Grijó permanece como uma referência religiosa, histórica e arquitetônica de Vila Nova de Gaia. Seus claustros, a igreja, a talha dourada e os azulejos da capela-mor testemunham diferentes períodos da história portuguesa e expressam a continuidade de uma comunidade cristã que, quatro séculos depois da inauguração da nova igreja, continua celebrando a fé no mesmo espaço.
Dom Manuel Linda, bispo da Diocese do Porto {"@context": "http://schema.org","@type": "ImageObject","contentUrl": "https://www.vaticannews.va/content/dam/vaticannews/multimedia/2026/settembre/10/1000051581.jpg/_jcr_content/renditions/cq5dam.thumbnail.cropped.750.422.jpeg","creditText": "Vatican News","height": "750","width": "422"} A homilia de D. Manuel Linda " Em Roma, o verão e o outono de 1626 foram agitados: era necessário aprontar e embelezar essa obra-prima do Ocidente que é a basílica de São Pedro para que fosse dedicada a 18 de novembro. A data impunha-se: nesse dia, comemoravam-se os 1.300 anos da sagração da primitiva igreja, edificada no ano 326, pouco depois da liberdade dada aos cristãos pelo imperador Constantino, e agora substituída por uma belíssima basílica. Menos de quatro meses antes desta enorme e simbólica festa, a 28 de agosto, eram as pessoas de Grijó que participavam e viviam um acontecimento ímpar: a primeira Missa neste imponente edifício que os Cónegos Regrantes construíram e colocaram ao serviço dos cristãos desta zona, precisamente no dia litúrgico do seu fundador e referência espiritual: Santo Agostinho. Trata-se de uma quase coincidência assinalável, porque ambas as igrejas representam um ideal de beleza e de fé.
Quatrocentos anos separam, portanto, a primeira Missa da que hoje se celebra. As gerações, as pessoas, a língua usada, a forma de vestir, as expectativas, a história e as preocupações são muito diferentes. Mas a Missa é a mesma porque Cristo é O mesmo. Aqui se proclama o mesmo Evangelho, a Igreja reporta-se ao mesmo sacrifício de Cristo e o Senhor alimenta-nos com o mesmo Pão. É esta a maravilha da nossa fé, revivida neste belo e secular espaço: os rostos desapareceram, mas, no altar, Cristo continua a dizer-nos: "Este é o meu corpo entregue por vós".
A celebração deste quadringentésimo aniversário não pode, pois, reportar-se apenas a um passado ou uma data que aconteceu, mas já não se pode recuperar. Ela fala-nos, fundamentalmente, de uma memória viva da ação de Deus. Quatro séculos de Missas e demais ações sacramentais representam gerações de homens e mulheres que procuraram Deus, já que cada Eucaristia renova a presença de Cristo e torna o Mistério Pascal contemporâneo. As pedras desta igreja conservam a memória de orações, silêncios, alegrias, lutos e vocações. Tal como hoje e no futuro, pois não celebramos apenas o que foi: celebramos Aquele que permanece.
Aqui se concretiza a famosa perceção de Santo Agostinho, expressa naquela frase que todos conhecemos: "Criaste-nos para ti, Senhor. E o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti". Sim, como no primeiro momento, também hoje e sempre o mosteiro apresenta-se-nos como um lugar de busca de Deus. O mundo mudou, os séculos passaram, mas a inquietação humana fundamental permanece: onde encontrarei vida em plenitude?; que razões dão sentido ao meu viver?; onde posso encontrar Deus e a felicidade? Ao longo destes quatro séculos, esta igreja e este mosteiro têm constituído um sinal visível dessa procura. Por isso, ele não é apenas um edifício com história e com beleza: ele é um testemunho de corações que procuraram o coração de Deus. O mosteiro é uma casa consagrada a Deus, mas a liturgia que nel se celebra convida-nos a dar um passo mais além: o coração humano é também chamado a tornar-se uma morada para Deus.
Quatrocentos anos de história poderiam facilmente transformar a celebração em nostalgia. Pensemos, por exemplo, nas centenas ou milhares de frades que o habitaram e, hoje, nenhum cá vive. O Evangelho, porém, faz-nos passar da pedra material à pedra viva, isto é, às pessoas. A verdadeira continuidade do mosteiro consiste não só em preservar paredes, altares e obras de arte, mas em deixar que ele prossiga a geração da fé, oração, fraternidade, vocações, serviço, caridade. E, graças a Deus, esta mais nobre função permanece e atualiza-se ininterruptamente: ele continua a ser um lugar onde Cristo forma um povo. Um povo que O ama e que ama os seus irmãos. A Eucaristia, aqui celebrada há quatro séculos, é, por isso, também um convite oportuno à superação das divisões, do individualismo e do isolamento. Formemos um mesmo povo alimentado pela Eucaristia e enviado ao mundo para o serviço fraterno!
Sabemos que Santo Agostinho, notável político e tribuno romano, viveu uma juventude completamente afastada da fé. Com o contributo das orações e conselhos da mãe, Santa Mónica, acabou por se converter e encontrar na fé a felicidade verdadeira e intensa que nunca tinha experimentado. É dessa altura um capítulo do seu livro "Confissões" que se tornaria célebre: "Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova... Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava... Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou [...]. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração eт coisas exteriores que só me faziam afastar cada vez mais d'Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava... Eis que estavas dentro de mim e eu fora de mim!".
Agostinho descobre que Deus não esteve ausente durante os anos da sua busca: Deus já o procurava antes de Agostinho procurar a Deus. Sim, Deus procura-nos a todos, ao crente e ao não crente, àquele para quem a fé é natural e a quem parece que são inultrapassáveis as dificuldades. Então, lembremo-nos: antes da nossa busca, há a busca de Deus; antes da nossa fidelidade, há a fidelidade d'Ele; antes da nossa oração, há o Seu chamamento; antes da nossa história, existe a Sua graça. Que a história de Grijó possa ser lida como uma história de fidelidade de Deus.
Caros grijoenses, não sabemos como serão os próximos séculos, mas sabemos quem permanece: Cristo. Ao mesmo tempo que vos dou os parabéns por esta igreja e pelo uso que fazeis dela no dia-a-dia da comunidade crente, confio-vos uma missão: proteger não só o mosteiro, mas a fé que ele testemunha. E recordo-vos: a forma mais bela de celebrar quatrocentos anos da Eucaristia nesta mesma igreja é assegurar que esta Missa não seja apenas uma recordação, mas uma fonte para o futuro ".
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Fonte: Vatican News
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