Mons. Frisina no Brasil: a humildade e a competência como maestro e compositor
Vaticano

Mons. Frisina no Brasil: a humildade e a competência como maestro e compositor

02 de setembro de 2026

31/08/2026 De volta ao Brasil: mons. Frisina à frente de um coro de mil vozes em Campinas/SP Nesta segunda vez no país, após passagem em 2019, o maestro italiano ministrou conferências sobre liturgia, tradição e música contemporânea no 1º Congresso Internacional de Coros ... 31/08/2026 Campinas/SP: encontro histórico da música litúrgica no Brasil com mons. Frisina César Carmo*

O monsenhor Marco Frisina, maestro na diocese de Roma, esteve no Brasil por ocasião do 1º Congresso Internacional de Coros Litúrgicos. Durante sua passagem pelo país, esteve em algumas cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e São Paulo, mas o grande foco de sua visita foi a cidade de Campinas/SP. Tive a honra de estar com ele em duas ocasiões. A primeira foi na terça-feira, na Igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo, durante um ensaio. Posteriormente, estive presente de quinta-feira a domingo na cidade de Campinas, participando do Congresso. Gostaria, portanto, de apresentar algumas considerações pessoais como músico trompetista.

Tive a oportunidade de tocar algumas peças de autoria do mons. Frisina durante a Santa Missa. Durante os concertos, participei como cantor do coro residente, que servia como referência para o grande coral de aproximadamente mil vozes, formado por todos os participantes do Congresso. Nós, integrantes do coro residente, permanecíamos no altar justamente para oferecer uma referência aos congressistas. Para isso, participamos de diversos ensaios dias antes do congresso.

A primeira característica que me chamou profundamente a atenção foi sua humildade. Na música "Cantico delle creature" - inspirato a un testo di San Francesco", numa parte do texto em italiano, dizia: "Servite a Lui con grande umiltà. Laudate il mio Signore" ou seja, servir ao Senhor com grande humildade. Louvado seja meu Senhor. E essa frase parece resumir muito bem sua postura durante todo o Congresso. Ele se demonstrou um maestro extremamente humilde: humilde com os músicos, humilde diante dos erros e sempre disposto a compreender que ninguém erra deliberadamente. Sua postura diante das falhas era sempre de correção, orientação e respeito.

Outro aspecto que me surpreendeu profundamente foi sua regência. Confesso que, por sersacerdote, inicialmente imaginei que sua técnica de regência pudesse ser mais simples ou básica. No entanto, monsenhor Marco Frisina demonstrou ser, de fato, um maestro profissional. Sua regência era extremamente precisa. Com a mão direita, conduzia os tempos e os compassos da música; com a mão esquerda, dava as entradas e transmitia toda a expressão musical necessária. Sua precisão era tamanha que, por vezes, quando algum músico deixava de executar uma nota ou cometia algum erro, ele imediatamente percebia, interrompia o ensaio e indicava exatamente o ponto que precisava ser corrigido.

Durante as conferências, mons. Frisina explicou que estudou música antes de entrar no seminário. Formou-se e estudou durante muitos anos em conservatórios da região de Roma. Posteriormente, ingressou no Pontifício Seminário Romano, onde também exerceu a função de maestro. Como ele próprio brincou durante uma de suas falas, muitos de seus colegas de seminário hoje são bispos e cardeais, enquanto ele continuou sendo “apenas um simples Padre”. E, por falar em Padre, outro aspecto marcante foi justamente perceber que, em todos os momentos, mons. Frisina demonstrava que, antes de tudo, é um padre. Durante todos os dias do Congresso, celebrou a Santa Missa e exerceu plenamente suas atribuições sacerdotais.

Sobre sua produção musical, ele deixou muito claro que suas composições litúrgicas são pensadas para coros que não necessariamente sejam profissionais:

“São obras destinadas às dioceses, paróquias e comunidades, onde qualquer pessoa que goste de cantar pode participar, desde que haja um trabalho sério de preparação e ensaios.”

No entanto, ele também destacou a importância da presença de um músico profissional na condução desses grupos. O maestro ou responsável musical deve possuir formação e competência profissional, além de compreender e viver a realidade litúrgica da Igreja. Já os cantores não precisam necessariamente ser músicos profissionais. Como ele mesmo afirmou em diversos momentos, todos podem e devem cantar.

Além das composições litúrgicas, mons. Frisina possui uma vasta produção que inclui oratórios, trilhas sonoras, óperas e outras obras destinadas, estas sim, a músicos profissionais. No concerto realizado no sábado com o tema "Cristo, Nossa Esperança", tivemos a oportunidade de ouvir obras que podemos chamar, em um sentido mais técnico, de “eruditas”. Eram composições que exigiam músicos e cantores com maior preparação. Foram realizados diversos ensaios com os congressistas, entre os quais havia muitos músicos profissionais. O coro residente também precisou de intensa preparação, pois interpretamos obras em latim, italiano, inglês e português. Em um segundo momento do concerto, foram apresentadas obras de caráter mais popular, interpretadas por solistas. Entre os momentos mais marcantes, esteve um arranjo realizado por mons. Frisina sobre uma obra de Ary Barroso (Na baixa do Sapateiro) escrito para orquestra e executado instrumentalmente.

Nesse momento, mais uma vez, ele demonstrou sua capacidade como arranjador e maestro. Muitas vezes, temos a imagem de Marco Frisina apenas como um compositor de músicas para a missa, algumas delas, inclusive, aparentemente simples do ponto de vista musical. No entanto, durante esse Congresso, percebi claramente que ele não é apenas um “compositor de músicas para missa”, mas, de fato, um grande compositor de música sacra, com uma produção ampla e tecnicamente consistente. Entre os aspectos que mais chamaram a atenção — não apenas a mim, mas também à minha esposa, Isabella, e a diversos músicos presentes —, o primeiro, sem dúvida, foi sua humildade.

A música “Paradiso, paradiso”, do filme sobre São Filipe Néri, retrata muito bem essa dimensão da alegria e da felicidade. Em diversos momentos, mons. Frisina afirmou que a música não pode ser uma "doença", mas ela precisa ser uma "cura". A música precisa ser felicidade. "É preciso servir ao Senhor com alegria". E isso foi demonstrado por ele durante todos os momentos do Congresso: em suas palestras, nos ensaios, nas celebrações e também na maneira como recebeu e se relacionou com o grande público presente.

O segundo ponto que gostaria de destacar é justamente sua regência. Ele demonstrou ser um maestro profissional, e isso possui um significado muito importante para a música católica. Em terceiro lugar, e não menos importante, destaco sua atuação como compositor. Falando agora especificamente como músico, posso afirmar que Marco Frisina sabe construir uma composição. Ele sabe unir o texto à música, respeitando as regras da harmonia e do contraponto, com domínio técnico, mas também com profundo sentido artístico e espiritual. Um exemplo disso foi apresentado por ele próprio ao explicar uma de suas composições:

“Na obra Anima Christi, quando o texto se refere a Cristo, a melodia sobe; quando se refere à humanidade pecadora, a melodia desce, criando musicalmente uma reflexão e atribuindo significado à relação entre palavra e som.”

Esse tipo de construção musical é comum em composições com texto e foi utilizado ao longo da história pelos grandes compositores. Portanto, minha principal impressão sobre a vinda de monsenhor Marco Frisina ao Brasil, especialmente por ocasião do 1º Congresso Internacional de Coros Litúrgicos, pode ser resumida em três aspectos: sua humildade como homem e sacerdote, sua competência como maestro e sua grande capacidade como compositor. Mais do que conhecer o autor de tantas músicas presentes nas celebrações da Igreja, o Congresso proporcionou a oportunidade de conhecer um sacerdote que coloca sua formação musical a serviço da fé; um maestro de grande competência técnica e um compositor capaz de unir, de maneira profunda, música, arte, texto e espiritualidade.

* professor de música e trompetista

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Fonte: Vatican News

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