Gallagher: por si só, a diplomacia não produz a paz, mas prepara as condições para que se enraíze
Vaticano

Gallagher: por si só, a diplomacia não produz a paz, mas prepara as condições para que se enraíze

08 de setembro de 2026

Antonella Palermo - Vatican News

“Nenhum acordo surge sem a disposição para se encontrar, mas os gestos precisam ser traduzidos em regras justas e duradouras.” Assim afirmou dom Paul Richard Gallagher, secretário para as Relações com os Estados e as Organizações Internacionais, em um trecho de sua intervenção em 7 de setembro, na inauguração em Assis do seminário anual para professores de Teologia e assistentes pastorais da Universidade Católica do Sagrado Coração, dedicado este ano ao tema “São Francisco e os caminhos da reconciliação”.

O programa das jornadas de formação se estenderá por quatro dias até 10 de setembro. Entre os convidados do encontro, estavam também Maria Tripodi, subsecretária de Estado do Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional, e mons. Marco Malizia, consultor para assuntos religiosos do mesmo Ministério.

Momento da inauguração em Assis (@Università Cattolica) {"@context": "http://schema.org","@type": "ImageObject","contentUrl": "https://www.vaticannews.va/content/dam/vaticannews/multimedia/2026/settembre/07/whatsapp-image-2026-09-07-at-17-12-50.jpg/_jcr_content/renditions/cq5dam.thumbnail.cropped.750.422.jpeg","creditText": "Vatican News","height": "750","width": "422"} Para dar início aos trabalhos, estiveram presentes o prefeito de Assis, Valter Stoppini; Elena Beccalli, reitora da Universidade Católica do Sagrado Coração; dom Mario Delpini, arcebispo de Milão e presidente do Instituto Giuseppe Toniolo; e monsenhor Claudio Giuliodori, assistente eclesiástico geral da universidade. Este último relembrou a fonte inspiradora do compromisso de uma universidade que, ao longo das décadas, muito fez para combater as derivas nazifascistas por meio de uma cultura de diálogo e paz, formando também numerosos jovens intelectuais que deram sua contribuição fundamental à elaboração da Carta Constitucional, “cuja grandeza de visão, riqueza de valores e solidez da estrutura apreciamos ano após ano”. Um discurso compartilhado por Beccalli, que destacou o papel de uma “cultura da negociação”, o valor fundacional da teologia para as diversas disciplinas e a missão das universidades como instituições de paz. O Reitor também anunciou o lançamento iminente de um livro pela editora Vita e Pensiero sobre a herança de São Francisco nas áreas de estudo da Universidade e enfatizou: “As universidades, em particular as católicas, devem construir pontes entre as civilizações. Devemos investir muita energia nisso”.

O representante vaticano relembrou um momento significativo da história das relações entre a Santa Sé e o Estado italiano, partindo daquele encontro — que ocorreu em 4 de outubro de 1926 no mesmo Palácio dos Priores, onde hoje se realiza o evento — entre o cardeal Rafael Merry del Val, Legado Pontifício (definido por Leão XIV como um “verdadeiro diplomata do encontro”), e o ilustre Pietro Fedele, Ministro da Educação Pública. Um gesto que contribuiu para dar início ao processo formal que levaria, três anos depois, à assinatura dos Pactos de Latrão. “Um gesto pode abrir um caminho — destacou Gallagher —; o direito pode dar-lhe estabilidade”. Daí sua reflexão sobre a importância de considerar o contexto institucional e político em que nasceu o Concordato, profundamente diferente do atual e, no entanto, os critérios fundamentais que permanecem válidos até hoje e devem continuar a inspirar uma “colaboração saudável”, conforme precisado pela Gaudium et spes, em prol do bem comum.

O Concílio Vaticano II, por um lado, e o amadurecimento da sociedade civil e a evolução da ordem estatal, por outro, levaram ao Acordo de 1984, que modificou consensualmente a disciplina concordatária, na qual se especifica o compromisso bilateral de respeitar o princípio da independência e da soberania do Estado e da Igreja Católica. É nesse ponto que dom Gallagher insiste, afirmando que “distinção” não significa “estrangeiridade” e que “colaboração não significa confusão”. Em particular: “A libertas Ecclesiae não é um privilégio corporativo: ela garante à Igreja a liberdade necessária para cumprir sua missão e protege a dimensão comunitária e institucional da liberdade religiosa”.

O próprio fato de o Acordo ter sido assinado, prossegue Gallagher, evidencia que “a estabilidade não coincide com a imobilidade: a continuidade de uma relação contratual pode exigir também a capacidade de adaptar, de comum acordo, suas regras às novas condições históricas”. Em seguida, ele destaca os duplos frutos trazidos por esse gesto: para a Igreja, liberdade e segurança jurídica no exercício de sua missão; para o Estado, um quadro estável para lidar com questões de interesse comum, subtraindo-as da precariedade das circunstâncias políticas. Para ambas as partes, a possibilidade de colaborar em áreas que vão desde a educação até a proteção do patrimônio cultural e a assistência caritativa. “Não é um privilégio”, portanto, reconhecer a realidade social da Igreja, lembrou ainda o diplomata do Vaticano, citando o cardeal Casaroli, pois o que importa é a contribuição dada em um quadro pluralista da própria sociedade, no qual também atuam outras religiões e sujeitos portadores de outras convicções.

A intervenção de dom Gallagher foi encerrada com a ênfase, mais atual do que nunca, de que “o diálogo autêntico não apaga as diferenças, mas busca as condições para que elas possam coexistir em uma colaboração leal”. E, por fim, a ênfase na dimensão de dom que a verdadeira paz possui, aquela sobre a qual São Francisco de Assis escreveu em seu Testamento. Quanto ao resto, o trabalho do homem prepara o terreno, tornando-o fértil para acolher essa dádiva: “A diplomacia não produz a paz por si só; pode, porém, preparar as condições humanas, políticas e jurídicas para que ela possa criar raízes”.

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui .

Fonte: Vatican News

Ver notícia oficial