Foco na História: as grandes civilizações africanas. A liderança de Nkrumah e o pan-africanismo
11 de setembro de 2026
Padre José Inácio de Medeiros, CSsR - Instituto Histórico Redentorista
No início do século XX, quase toda a África, com exceção da Etiópia e da Libéria, país fundado por afrodescendentes, ainda vivia sobre o regime colonial. Porém, muitos africanos que viviam fora do continente começaram lentamente a despertar, tomando consciência de suas origens e da real situação de seu continente.
O processo de ocupação da outrora rica África negra, iniciado 400 anos antes pela Europa, havia atingido seu auge com a ocupação de suas terras e exploração de suas riquezas.
Calcula-se que durante o processo de ocupação colonial a África tenha perdido de 400 a 600 milhões de vidas humanas, além da exporiação de suas riquezas. Alguns tratados europeus como o acordo de Berlim justificou o domínio de vários povos, a maioria dos quais estabeleceu um sistema de apartheid e segregação, justificando as mais variadas formas de servidão.
Além da exploração humana, as riquezas minerais, animais e vegetais eram levadas a baixo custo para a Europa e outras partes do mundo, carentes das riquezas que só existiam na África.
Uma das formas de exploração mais pesada aconteceu no Congo, durante o domínio do rei belga Leopoldo II. Calcula-se que de 10 a 20 milhões de mortes tenham acontecido nesse período, num prazo de mais ou menos 20 anos.
Num movimento bastante semelhante ao que já acontecia nas Américas, aos poucos foi nascendo um momento destinado a recuperar o orgulho africano, trabalhando pelo resgate da liberdade de seu continente.
Alguns comitês foram sendo criados em países da Europa e nos Estados Unidos, realizando conferências para analisar o estado da África e sua diáspora. Nessa circunstância criou-se um Comitê chefiado por W.E.B Du Bois que apelava por reformas moderadas na política colonial. Um primeiro documento elaborado cobrava que as nações colonialistas "reconhecessem e protegessem os direitos dos africanos e dos afrodescendentes”.
De início o movimento não teve muita força e nem ganhou muita repercussão, mas apenas no final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) é que a luta pelo pan-africanismo voltaria a dar voz a W.E.B Du Bois. À margem da assinatura do Tratado de Versalhes, que selou a entrega das colônias da Alemanha derrotada na guerra aos vencedores ingleses e franceses, foi feito um clamor ao presidente dos Estados Unidos para incluir a possibilidade de autodeterminação para os africanos. O presidente dos EUA ouviu a mensagem de Du Bois e produziu um memorando de 14 pontos nesse sentido, mas novamente não teve praticamente nenhum impacto na África.
No ano de 1919, Du Bois junto com o deputado senegalês à assembleia francesa Blaise Diagne organizaram uma conferência pan-africana em Paris, que reuniu 60 delegados. Mais uma vez, poucos nativos do continente estiveram presentes. A conferência terminou com uma nova resolução conclamando os colonizadores a relaxar o tratamento dispensado aos africanos, especialmente no Congo.
Se hoje a humanidade considera a influência e o destaque de alguns líderes negros como Martin Luther King Jr., Malcolm X, e outros, a luta pelos direitos civis dos negros no mundo começou bem antes e um dos responsáveis por isso foi o líder ganense Kwame Nkrumah, principal voz por trás das lutas de libertação africana das colônias europeias.
Educado em uma escola católica durante sua infância, na juventude mudou-se para o EUA formando-se em teologia e fazendo um mestrado em filosofia. Ali foi desenvolvendo suas ideias de um continente africano livre, desenvolvido e solidário, o que ajudou a criar o conceito de Pan-Africanismo como movimento político, filosófico e social que defende a união de todos os povos da África e de seus descendentes na diáspora.
Aos 38 anos retornou ao Gana, seu país de origem, já como um político respeitado. Aos poucos, foi recrutando pessoas para sua causa: a de implantar um autogoverno no país, na época colônia do Reino Unido.
Gana foi o primeiro país africano a tornar-se independente em 1957, e sua luta e seus ideais inspirou líderes africanos e negros em todo mundo pela conquista de liberdade.
Em fevereiro de 1966, enquanto Nkrumah estava em uma visita ao Vietnã do Norte e à China, seu governo foi derrubado por um golpe militar. Alguns analistas indicam a possibilidade concreta de o golpe ter recebido o apoio da CIA.
Nkrumah nunca mais voltou a Gana, mas continuou a trabalhar na sua visão da unidade africana. Ele viveu no exílio em Conacri, na Guiné, como convidado do presidente Ahmed Sékou Touré, que fez dele copresidente honorário do país.
Apesar de aposentado dos cargos públicos, ele ainda estava com medo de agências de inteligência ocidentais. Quando seu cozinheiro morreu, ele temeu que alguém fosse envenená-lo, começando a estocar comida em seu quarto. Ele suspeitou também que agentes estrangeiros estivessem na vigilância, vivendo em constante medo de rapto e assassinato. Com a saúde debilitada, voou para Bucareste, na Romênia, para tratamento médico em agosto de 1971.
Kwame Nkrumah morreu de câncer em abril de 1972 com 62 anos de idade, sendo sepultado em Gana num túmulo da sua cidade natal de Nkroful. Embora o túmulo tenha permanecido em Nkroful, seus restos mortais mais tarde foram transferidos para um grande túmulo memorial em Acra.
Em 2000, ele foi eleito o maior africano do milênio através de uma votação feita na África pelo povo. A votação foi organizada pelo Serviço Mundial da BBC.
O pan-africanismo, no entanto, foi ganhando, ganhando força, ajudando a impulsionar vários movimentos de libertação e independência que cresceram no continente e até fins da década de 1970 quase todos os atuais países da África já tinham conquistado a sua independência. Ao longo do século XX, o ideário fortaleceu as independências africanas e inspirou a criação da Organização de Unidade Africana (OUA).
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Fonte: Vatican News
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