Colômbia, um mês depois do terremoto: entre os escombros, a solidariedade
Vaticano

Colômbia, um mês depois do terremoto: entre os escombros, a solidariedade

11 de setembro de 2026

Por Júlio Caldeira IMC *

A Colômbia amanheceu na segunda-feira, 10 de agosto, marcada por um dos maiores terremotos de sua história. Às 7h34 da manhã, um sismo de magnitude 7,4, com epicentro no município de San José del Palmar, no departamento de Chocó, e a uma profundidade de 103 quilômetros, sacudiu amplas regiões do país.

O movimento também foi sentido no Panamá, Venezuela, Equador e no norte do Brasil. Considerado o maior sismo registrado instrumentalmente no país no século XXI e o terceiro mais forte de sua história, o terremoto foi seguido por 297 réplicas. Os departamentos de Chocó, Valle del Cauca, Quindío, Risaralda e Caldas estão entre os mais afetados. Residências, edifícios, hospitais, escolas, estradas e aeroportos sofreram danos, deixando comunidades inteiras diante do desafio da reconstrução.

Um mês depois, a dimensão da tragédia ainda está sendo contabilizada. Segundo o último informe da Unidad Nacional para la Gestión del Riesgo de Desastres (UNGRD), a Colômbia registra 331 pessoas falecidas, 4.505 feridas e 111 desaparecidas. Ao todo, 466.709 pessoas de 296.738 famílias foram afetadas. O terremoto provocou danos em 498 municípios de 16 departamentos, metade dos 32 departamentos que formam o país. Foram contabilizadas 36.326 moradias destruídas, 202.002 casas danificadas e 743 edifícios que entraram em colapso.

(Foto: Júlio Caldeira IMC ) (Pe. Júlio Caldeira IMC) {"@context": "http://schema.org","@type": "ImageObject","contentUrl": "https://www.vaticannews.va/content/dam/vaticannews/multimedia/2026/settembre/11/026-09-11-at-11-26-01-4.jpg/_jcr_content/renditions/cq5dam.thumbnail.cropped.750.422.jpeg","creditText": "Vatican News","height": "750","width": "422"} *Sandrio Cândido, brasileiro, morador de Cali e voluntario*

Diante dessa realidade, a solidariedade nacional e internacional tornou-se fundamental. Entre as muitas pessoas que se mobilizaram nos primeiros momentos está o brasileiro Sandrio Cândido, residente em Cali, no Valle del Cauca, há dez anos e voluntário nos trabalhos de apoio e resgate inicial.

Nascido em 1991, em Minas Novas, no estado brasileiro de Minas Gerais, Sandrio mudou-se para São Paulo aos 15 anos. Afro-brasileiro e mineiro, é poeta e graduado em Filosofia. Atualmente, é professor na Universidade Javeriana de Cali, e também leciona classes de português. Nas redes sociais, mantém o canal @professorsandrinho, que reúne quase 60 mil seguidores e se dedica à divulgação das culturas brasileiras, estabelecendo uma ponte entre o português e o espanhol.

Nesta entrevista, Sandrio recorda aqueles primeiros momentos, fala sobre a experiência de ajudar em meio aos escombros e compartilha as marcas que permanecem um mês depois da tragédia.

“Logo percebi que aquele movimento era diferente.”

Sandrio, como você viveu os primeiros momentos do terremoto?

Naquela manhã de segunda-feira, eu tinha acabado de acordar quando senti a terra tremer. Para nós, brasileiros, que não estamos acostumados a viver situações como essa, a experiência é completamente diferente.

Minha primeira reação foi esperar, pois alguns meses antes também havíamos sentido um sismo, embora de menor intensidade. No entanto, logo percebi que aquele movimento era diferente. Saí de casa tomado por uma mistura de medo, angústia e ansiedade.

*Você estava justamente em uma das regiões mais afetadas. O que encontrou quando saiu de casa?*

Moro em um condomínio situado justamente na região onde tudo aconteceu. Quando o primeiro movimento passou e as primeiras notícias começaram a circular, deixei minha casa tentando compreender o que havia acontecido.

Antes disso, avisei algumas pessoas no Brasil, pois soube desde o princípio que o acontecimento teria repercussão internacional.

A primeira coisa que consegui perceber foi que algo grave havia acontecido. Caminhei pelo bairro e comecei a encontrar prédios parcialmente ou completamente destruídos, além de pessoas correndo de um lado para outro, ainda tentando compreender a dimensão do que estava acontecendo.

“Começamos a retirar os escombros.”

*Como você começou a participar dos trabalhos de ajuda?*

Cheguei à casa de uma amiga que tinha sido afetada e começamos a retirar os escombros. Passamos vários dias envolvidos nesse trabalho, assim como muitas outras pessoas que se dedicaram a ajudar em suas próprias casas e nas casas dos vizinhos.

Durante a noite, juntávamo-nos aos voluntários que haviam se organizado ao longo do dia para retirar os escombros dos prédios que tinham desabado.

(Foto: Júlio Caldeira IMC ) {"@context": "http://schema.org","@type": "ImageObject","contentUrl": "https://www.vaticannews.va/content/dam/vaticannews/multimedia/2026/settembre/11/26-09-11-at-11-26-01-2.jpg/_jcr_content/renditions/cq5dam.thumbnail.cropped.750.422.jpeg","creditText": "Vatican News","height": "750","width": "422"} *Você também participou dos trabalhos durante a noite. Como foram esses momentos?*

Junto com uma equipe de pessoas que trabalham com audiovisual, começamos a sair todas as noites para apoiar os pontos de resgate, tentando escutar pedidos de socorro em meio aos escombros.

Foram dias de muito cansaço, medo e incerteza, mas também de uma solidariedade muito presente.

Pessoas que não se conheciam se aproximavam, ofereciam água, comida, ferramentas, tempo e força. Em meio à destruição, essa solidariedade foi uma das coisas mais bonitas.

“Era o silêncio de uma cidade que procurava pelos seus”

*O que mais marcou você durante aqueles primeiros dias?*

Acho que uma das coisas mais difíceis para mim foi a sensação de vazio, esgotamento, angústia e dor que acompanhou aqueles momentos.

Havia uma espécie de silêncio em uma cidade tão acostumada ao barulho e à festa. Era o silêncio de uma cidade que procurava pelos seus; de pais que ainda esperavam encontrar seus filhos; de amigos que não sabiam se ainda era possível resgatar aqueles que amavam.

Todos esperávamos alguma resposta, enquanto muitos de nós ainda não sabíamos o que havia acontecido com familiares, amigos ou vizinhos.

Muitos passamos dias em estado de choque, tentando nomear tudo aquilo, compreendendo pouco a pouco a dimensão do que havia acontecido e reconhecendo, entre os escombros, rostos, nomes e histórias que começavam a ganhar uma dimensão concreta.

“Todos fomos profundamente afetados.”

*Você e sua casa foram diretamente atingidos?*

Embora não tenha sido afetado fisicamente, pois, na minha unidade, apenas quatro blocos foram interditados por questões estruturais, nenhum deles desabou completamente.

Mas sinto que todos fomos profundamente afetados emocionalmente.

Também tenho pessoas próximas que perderam familiares, o que tornou essa experiência ainda mais dolorosa e próxima.

(Foto: Júlio Caldeira IMC ) (Pe. Júlio Caldeira IMC) {"@context": "http://schema.org","@type": "ImageObject","contentUrl": "https://www.vaticannews.va/content/dam/vaticannews/multimedia/2026/settembre/11/26-09-11-at-11-26-02-1.jpg/_jcr_content/renditions/cq5dam.thumbnail.cropped.750.422.jpeg","creditText": "Vatican News","height": "750","width": "422"} *Um mês depois, como você percebe essas marcas?*

Algo muito estranho é que, mesmo depois de alguns dias, ainda sinto no corpo a sensação de que a terra está tremendo.

Às vezes, tenho a impressão de que algo vai acontecer, como se o corpo permanecesse em estado de alerta.

Existe uma ansiedade no ambiente, uma espécie de tensão que permanece mesmo quando tudo parece estar novamente em silêncio.

“Ainda não conseguimos recuperar completamente a rotina.”

*Como está hoje a região onde você mora?*

Na região onde moro, uma das áreas mais afetadas, ainda não conseguimos recuperar completamente a mobilidade e a rotina.

As ruas, os prédios e os espaços que antes faziam parte do cotidiano agora carregam as marcas do que aconteceu.

*O que será necessário para que a vida volte a encontrar seu ritmo?*

Acredito que será necessário um longo processo para que a vida volte a encontrar algum sentido de pertencimento ao cotidiano.

Para mim, é importante que possamos novamente habitar esses lugares não apenas como espaços onde sobrevivemos a uma tragédia, mas como lugares aos quais voltamos a sentir que pertencemos.

“A solidariedade foi uma das coisas mais bonitas.”

*Em meio a uma tragédia dessa dimensão, o que mais chamou sua atenção na reação das pessoas?*

A solidariedade.

Pessoas que não se conheciam se aproximaram e começaram a ajudar. Algumas ofereciam água, outras comida, ferramentas, tempo ou força.

Foram dias muito difíceis, mas também foi possível perceber uma capacidade muito grande de cuidado e de união.

Em meio à destruição, essa solidariedade foi uma das coisas mais bonitas que vivemos.

“A reconstrução será um processo longo.”

*O que significa, para você, reconstruir um mês depois do terremoto?*

A reconstrução não significa apenas levantar novamente aquilo que foi destruído.

É preciso reconstruir também a confiança, a segurança e a relação das pessoas com os lugares onde vivem.

As ruas e os prédios podem ser reconstruídos, mas existe também uma dimensão emocional que precisa de tempo.

Precisamos voltar a sentir que esses lugares são nossos, que podemos habitá-los novamente sem viver apenas com a memória da tragédia.

(Foto: Júlio Caldeira IMC ) (Pe. Júlio Caldeira IMC) {"@context": "http://schema.org","@type": "ImageObject","contentUrl": "https://www.vaticannews.va/content/dam/vaticannews/multimedia/2026/settembre/11/6-09-11-at-11-26-02.jpg/_jcr_content/renditions/cq5dam.thumbnail.cropped.750.422.jpeg","creditText": "Vatican News","height": "750","width": "422"} *Depois de tudo o que você viveu, que mensagem gostaria de deixar um mês depois do terremoto?*

Uma mensagem é que a gente precisa cuidar da natureza. Embora os terremotos sejam eventos naturais e imprevisíveis, cada vez mais a natureza está pedindo socorro e não precisamos esperar uma tragédia para colocar a nossa solidariedade ao serviço de uma causa comum.

Outra mensagem é que a tragédia não termina quando a terra deixa de tremer. Um mês depois, ainda existem pessoas reconstruindo suas casas, suas comunidades e suas próprias vidas. Mas também existe uma força muito grande na solidariedade. Quando tudo parece desmoronar, as pessoas são capazes de se aproximar, oferecer ajuda e cuidar umas das outras.

Talvez essa seja uma das principais lições que ficam: ninguém reconstrói sozinho!

*Pe. Júlio Caldeira é missionário da Consolata na Amazônia colombiana e membro do Conselho do Centro para as Comunicações do CELAM.

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Fonte: Vatican News

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