Clima, ultrapassado o limite de 1,5°C: o mundo entra na "zona de perigo"
Vaticano

Clima, ultrapassado o limite de 1,5°C: o mundo entra na "zona de perigo"

05 de setembro de 2026

Francesco Citterich – Vatican News

O limite, que a comunidade internacional tenta evitar há anos, está prestes a ser ultrapassado. O limite de um aumento de 1,5°C na temperatura média global, acima dos níveis pré-industriais, não é mais, - segundo um relatório detalhado do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), - uma meta realista a ser defendida a todo custo, mas uma barreira que o planeta está prestes a ultrapassar. A ONU alerta que o desafio mudou: “Não se trata mais de evitar apenas o limite, mas de controlá-lo, limitando sua duração e minimizando suas consequências.

Este reconhecimento ocorre em um momento em que o sistema climático global está sob crescente pressão. Para agravar o cenário preocupante, temos o retorno do El Niño, fenômeno atmosférico e oceânico, que causa um aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico tropical e afeta o clima em vastas áreas do planeta. Um "super El Niño", com pico previsto para o fim do ano, corre o risco de elevar ainda mais as temperaturas globais e aumentar a probabilidade de eventos climáticos extremos, como adverte o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres: "El Niño está assumindo proporções enormes diante de nossos olhos". Suas palavras retratam um planeta, onde diferentes sinais climáticos se sobrepõem: "A ciência não deixa espaço a dúvidas: o planeta encontra-se em águas desconhecidas, que estão aquecendo". As temperaturas da superfície dos oceanos estão aumentando, as temperaturas atmosféricas também. Logo, cresce o risco de eventos climáticos extremos. E Guterres conclui: "O mundo encontra-se em uma zona de perigo".

Chile, as consequências do El Niño (AFP or licensors) {"@context": "http://schema.org","@type": "ImageObject","contentUrl": "https://www.vaticannews.va/content/dam/vaticannews/agenzie/images/afp/2026/09/03/08/1788416112478.jpg/_jcr_content/renditions/cq5dam.thumbnail.cropped.750.422.jpeg","creditText": "Vatican News","height": "750","width": "422"} Acordo de Paris O El Niño, por si só, não é causa da mudança climática. Mas, quando acontece em um mundo, já aquecido pelas emissões de gases de efeito estufa, pode contribuir para temperaturas globais ainda mais altas. Trata-se de uma espécie de amplificador passageiro de uma tendência que, na verdade, tem uma causa estrutural: o acúmulo de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa na atmosfera. É esta, justamente, a tendência subjacente que mais preocupa os cientistas. A meta de 1,5°C é o parâmetro primordial estabelecido pelo Acordo de Paris 2015, quando os países do mundo se comprometeram a manter o aumento da temperatura média global "bem abaixo" de 2°C acima dos níveis pré-industriais e a continuar os esforços para limitá-lo a 1,5°C. Tal limite não foi escolhido casualmente: ultrapassá-lo significaria aumentar, progressivamente, os riscos de eventos extremos, perda de biodiversidade, elevação do nível do mar, secas, crises hídricas e danos à agricultura.

Hoje, no entanto, as emissões globais permanecem muito altas. Os compromissos governamentais ainda são insuficientes para levar o planeta de volta a uma trajetória compatível com as metas climáticas de Paris. Esta distância entre as metas declaradas e as políticas reais torna, cada vez mais provável, ultrapassar o limite. O termo usado para descrever o novo cenário é o "excesso". Trata-se de uma superação temporária do limite previsto, pelo menos nos cenários mais favoráveis, por uma subsequente queda nas temperaturas. Este conceito muda radicalmente a forma como encaramos a crise climática. A questão não é mais, simplesmente, se o mundo vai conseguir se manter abaixo de 1,5°C, mas sim o quanto a temperatura subirá acima deste limite, por quanto tempo permanecerá e com que rapidez será possível voltar atrás. Cada fração de grau conta. Reduzir rapidamente as emissões significa evitar parte dos danos que, de outra forma, seriam inevitáveis. Portanto, a prioridade continua sendo a descarbonização da economia: deixar de lado, gradualmente, os combustíveis fósseis; acelerar o desenvolvimento de fontes renováveis; melhorar a eficiência energética; eletrificar o transporte e reduzir as emissões da indústria e da agricultura. No entanto, reduzir simplesmente as emissões futuras não será suficiente. Para conter uma possível ultrapassagem do limite, será necessário também remover parte do CO₂ acumulado na atmosfera. O reflorestamento, a restauração de ecossistemas e as tecnologias de captura e armazenamento de carbono podem contribuir para este objetivo. Porém, não existe um atalho tecnológico capaz de substituir a redução de emissões. Quanto mais o mundo adiar a transição, maior será a quantidade de dióxido de carbono que precisará ser removida no futuro. Enquanto isso, teremos que aprender a conviver com um clima cada vez mais instável. Logo, as políticas climáticas de adaptação são essenciais: cidades mais resilientes a ondas de calor; sistemas agrícolas capazes de lidar com a seca; infraestrutura capaz de suportar chuvas mais intensas e sistemas de alerta cada vez mais eficazes. Com efeito, as mudanças climáticas não são apenas uma questão ambiental, mas econômica, social e política, destinada a incidir sobre a segurança alimentar, a migração e a desigualdade.

O alerta da ONU deve, portanto, ser visto sem fatalismo. El Niño vai passar, como aconteceu com episódios anteriores: as flutuações climáticas naturais continuarão a ocorrer. O que não vai passar tão rapidamente é o aquecimento causado pelo acúmulo de gases de efeito estufa, a menos que as emissões sejam drasticamente reduzidas. Enfim, o verdadeiro desafio, hoje, é impedir que o inevitável se torne uma justificativa para não se fazer mais nada. Ultrapassar 1,5°C não significa que seja irrelevante atingir 1,6, 1,8 ou 2°C. Pelo contrário, cada décimo de grau representa uma parte do futuro que ainda pode ser salva. O planeta já se encontra em uma nova fase climática. As palavras de Guterres sobre a "zona de perigo" descrevem um mundo em que eventos extremos podem se tornar mais frequentes e intensos, enquanto a brecha para limitar o aquecimento se restringe. O limite de 1,5°C pode ser ultrapassado, mas nem tudo está perdido. O que muda é simplesmente o jogo: é preciso tentar evitar o limite da necessidade, cada vez mais urgente, de não ir muito além.

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Fonte: Vatican News

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