Bispo coreano: a fé nasce de um encontro, mesmo em tempos de IA
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Bispo coreano: a fé nasce de um encontro, mesmo em tempos de IA

07 de setembro de 2026

Vatican News

A fé cristã continua nascendo de um encontro pessoal, mesmo em uma época marcada pelo avanço da inteligência artificial e pela comunicação mediada por telas. Essa é uma das convicções apresentadas pelo bispo auxiliar da Diocese de Suwon, na Coreia do Sul, dom Germanus Kwak Jin-Sang.

Em entrevista à Agência Fides, durante sua participação em Roma no curso de formação para novos bispos promovido pelo Dicastério para a Evangelização, o prelado ressaltou que a experiência concreta de relacionamento continua sendo insubstituível na transmissão da fé. Para ele, a Igreja pode utilizar as novas tecnologias para alcançar as pessoas, mas sem permitir que o mundo virtual substitua a experiência real de comunidade, liturgia e encontro com Cristo.

A reflexão do bispo encontra raízes na própria história do cristianismo na Coreia. Nos primeiros tempos da Igreja no país, a fé foi transmitida principalmente de pessoa para pessoa por leigos que haviam entrado em contato com os textos cristãos. Em uma sociedade profundamente hierarquizada e influenciada pelo confucionismo, a mensagem de que todos os seres humanos pertencem a uma mesma família representava uma transformação profunda. Os primeiros cristãos passaram a acolher não apenas pessoas de sua própria condição social, mas também pobres, servos e marginalizados. Para o bispo Kwak, esse legado permanece atual em um mundo marcado por conflitos, guerras, dominação e disputas por recursos.

É nesse contexto que o prelado coreano estabelece uma relação entre a experiência cristã e o desenvolvimento da inteligência artificial. Segundo ele, a Igreja precisa preservar aquilo que constitui o valor insubstituível da pessoa: a liberdade, a experiência concreta, a capacidade de sentir alegria, tristeza, amor e sofrimento e a possibilidade de estabelecer relações autênticas. A inteligência artificial pode ser uma ferramenta útil, mas não deve levar à confusão entre o virtual e o real. O mesmo princípio vale para as redes sociais, que podem criar a impressão de proximidade, embora muitas vezes produzam apenas contatos rápidos e mediados por uma tela. A missão da Igreja, portanto, passa por utilizar esses recursos como portas de entrada para a fé, sem perder de vista que a experiência espiritual exige profundidade e presença.

Para o bispo de Suwon, a liturgia ocupa um lugar particularmente importante nesse processo. A celebração não é apenas um momento para ouvir ensinamentos ou preservar uma tradição, mas uma experiência na qual a pessoa pode encontrar concretamente a realidade de Cristo. Por isso, vídeos curtos e conteúdos produzidos para as redes sociais podem despertar curiosidade e interesse, mas não substituem a experiência litúrgica. Kwak observa ainda que essa questão se relaciona ao desafio enfrentado pela Igreja diante do sucesso de determinadas comunidades evangélicas na Coreia do Sul, capazes de estabelecer uma comunicação mais direta e emocional com as pessoas. Em vez de simplesmente imitar esses modelos, ele propõe uma reflexão sobre o significado profundo da liturgia e da fé, lembrando também que razão e fé não são realidades opostas.

A dimensão do encontro também estará no centro da preparação para a Jornada Mundial da Juventude de 2027, que será realizada em Seul. Para o bispo, o evento não deve ser entendido como uma iniciativa destinada exclusivamente aos jovens, mas como uma oportunidade de renovação da fé de toda a Igreja. Um dos elementos considerados mais importantes será a hospedagem de peregrinos em casas de famílias coreanas, especialmente durante a programação diocesana. Mais do que grandes eventos culturais, shows ou atrações relacionadas ao K-pop, a experiência de compartilhar alguns dias com uma família pode proporcionar um contato simples e profundo entre pessoas de diferentes países e gerações. Kwak incentiva inclusive os idosos a oferecerem um quarto aos peregrinos, sem se preocuparem excessivamente com diferenças de idade ou idioma: aplicativos de tradução podem ajudar, mas a hospitalidade e a presença humana permanecem fundamentais.

Essa proposta ganha significado especial em uma sociedade que, segundo o bispo, tornou-se mais individualizada e na qual até mesmo a arquitetura e os sistemas de segurança dos condomínios podem dificultar relações espontâneas entre vizinhos. A Jornada Mundial da Juventude poderia, assim, representar uma oportunidade para “reabrir as portas”, superar o medo do desconhecido e recuperar o sentido da hospitalidade. A mesma lógica se aplica ao desafio da reconciliação entre as duas Coreias. Para as novas gerações sul-coreanas, a Guerra da Coreia e suas consequências já não fazem parte necessariamente de uma experiência direta, o que torna a questão da reunificação mais distante e abstrata. Por isso, Kwak defende que a paz seja apresentada às novas gerações não apenas como uma questão política ou como herança histórica, mas como uma escolha ligada à dignidade humana e à capacidade de superar o individualismo, a competição e a busca exclusiva pelo sucesso material.

*Com informações de Agência Fides

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Fonte: Vatican News

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