Às tuas portas, Jerusalém
10 de setembro de 2026
08/09/2026 Pizzaballa: queremos lembrar que a Terra Santa é para todos O Patriarca Latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, na apresentação do Fórum Permanente “Within your gates: the forum for the universal vocation of Jerusalem”, ... Alessandra Buzzetti*
O caminho é longo e árduo, mas necessário e não impossível: construir uma narrativa alternativa, séria e sólida, compartilhada pelas diversas tradições religiosas para redescobrir a missão autêntica e universal de Jerusalém. A direção dessa jornada ficou clara no centro acadêmico da Universidade de Notre Dame da cidade. No palco, uma professora judia israelense e um professor muçulmano dialogavam a partir da visão expressa pelo cardeal Pizzaballa na sua Carta à Diocese “Eles voltaram a Jerusalém com alegria”.
Karma Ben-Johanan, historiadora das religiões e da teologia moderna e professora da Universidade Judaica de Jerusalém, e Sari Nusseibeh, intelectual e filósofo, ex-reitor da Universidade de Al Quds, são membros da “Às tuas portas – Within Your Gates: The Forum for the Universal Vocation of Jerusalem ”, a plataforma acadêmica e interdisciplinar promovida e presidida pelo Patriarca Latino, cardeal Pierbattista Pizzaballa, apresentada publicamente em 7 de setembro. É o resultado de quase três anos de trabalho, marcados por relações, diálogos e discussões a portas fechadas com estudiosos e representantes de Israel e da Palestina, logo após o dia 7 de outubro de 2023, o momento mais sombrio da história recente do conflito na Terra Santa.
“Cada um sentia que algo em nossas almas havia morrido. O convite do cardeal Pizzaballa foi, antes de tudo, o de colocar-se à escuta dos outros com profundidade e compaixão, sem atitudes de superioridade moral, mas para poder aprender com os outros", explica Daniel Schwake, diretor da Notre Dame Jerusalem e do Comitê Consultivo de Às tuas portas: "a plataforma surgiu assim; não tem como objetivo ocupar mais espaços institucionais, mas sim dar início a processos e fornecer ferramentas de aprofundamento e reflexão para uso de todos. Não temos uma voz única, nem interesse em apresentar soluções políticas. Nosso interesse é buscar juntos a verdade, ancorada na realidade e na história de todas as partes envolvidas”.
É por isso que o primeiro tema objeto de debate e diálogo nos últimos meses foi a linguagem, pois ela pode ser uma arma mortal de divisão e fechamento total ou um instrumento de compreensão e abertura mútuas. Não é algo óbvio que cristãos, judeus e muçulmanos que vivem em Jerusalém conheçam — antes mesmo de compreender — o significado histórico e de fé que o outro atribui aos mesmos lugares, onde cada pedra é disputada.
“Jerusalém, para mim, é um dilema. Não sei se a amo ou não, se meu apego a ela é saudável ou não. Luto continuamente com meus sentimentos", admite Sari Nusseibeh, "não acho que a Jerusalém que desejo seja aquela que herdei. Acho que a Jerusalém que desejo é uma Jerusalém prometida para o futuro. Precisamos trabalhar juntos para construí-la. Isso foi possível no passado e agora, que estamos novamente na escuridão, não significa que não possamos ver a luz. Aprendi muito com as discussões e os workshops dos quais participei no ‘Às tuas portas’. Podemos ter visões diferentes, mas temos os mesmos interesses espirituais.”
Ainda não é o momento da purificação da memória almejada pelo cardeal Pizzaballa em sua Carta Pastoral e em seu discurso no palco, mas é preciso começar a trabalhar para criar contextos diferentes, porém, serenos, onde todas essas posições e almas diferentes possam se confrontar de uma maneira nova.
“Precisamos ouvir a todos e nos manter firmes diante dessa realidade dolorosa, mas rica em oportunidades. Não vamos mudar a sociedade, não vamos mudar tudo", explicou o Patriarca, "mas queremos dar nossa contribuição e ser uma presença discreta, clara, incômoda se necessário, que lembre a cada um que esta terra pertence a todos”.
Esse é o desejo comum do Comitê Diretor e Consultivo do “Às tuas portas”, que se reuniu a portas fechadas antes do evento aberto ao público. Presente em Jerusalém estava Ninive Sandouka, ativista palestina de Jerusalém Oriental que coordena a Aliança pela Paz no Oriente Médio, uma rede de associações na qual israelenses e palestinos trabalham juntos; Margaret Karram, nascida em Haifa e que viveu muitos anos em Jerusalém, hoje presidente do Movimento dos Focolares; e Sarah Stroumsa, israelense, especialista em islamismo e arabismo, ex-reitora da Universidade Hebraica de Jerusalém.
“A ideia de buscar novas formas de alcançar as pessoas no debate público me atrai muito. Nos últimos anos, repetiram-se sempre as mesmas fórmulas”, diz Sarah Stroumsa: “vejo na plataforma ‘Às tuas portas’ uma oportunidade para uma narrativa diferente que atraia a atenção das pessoas e lhes permita refletir sobre o que está acontecendo.”
É um projeto em andamento, sem prazos forçados, que convida outros estudiosos, educadores, mas também historiadores e filósofos — e já há iniciativas internacionais, na Itália e nos Estados Unidos — a participarem desta primeira etapa da jornada. Pois essa é a verdadeira missão de Jerusalém, cidade de portas abertas.
* jornalista, correspondente para o Oriente Médio da Tv2000 e da InBlu2000
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Fonte: Vatican News
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