Vigilância e Fidelidade
26 de agosto de 2026
Cardeal Orani João Tempesta Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Vigilância e Fidelidade
O Testemunho de Santa Mônica
Celebramos neste dia 27 de agosto, Santa Mônica, mulher de fé perseverante, mãe que soube esperar, vigiar e confiar durante longos anos pela conversão de seu filho Agostinho. A liturgia com a Palavra que São Paulo dirige aos Coríntios e o chamado à vigilância que Jesus faz no Evangelho, encontra em Mônica uma tradução viva e comovente.
Enriquecidos em tudo pela graça de Deus: São Paulo abre sua Primeira Carta aos Coríntios – 1Cor 1,1-9 – com palavras de profunda gratidão. Ele se dirige a uma comunidade marcada por divisões e fragilidades, mas antes de qualquer correção, o Apóstolo escolhe começar pelo reconhecimento do dom recebido: “Nele fostes enriquecidos em tudo, em toda a palavra e em todo o conhecimento”. Paulo nos ensina, já nas primeiras linhas, algo essencial para a vida cristã e também para a vida em comunidade: antes de apontar o que falta, é preciso reconhecer o que Deus já concedeu.
Essa é uma lição valiosa para as nossas famílias, paróquias e ambientes de trabalho. Quantas vezes olhamos primeiro para as fraquezas dos outros, esquecendo os dons que cada pessoa já recebeu de Deus? Paulo nos convida a mudar esse olhar. Ele afirma que Deus é fiel e que foi Ele quem nos chamou à comunhão com seu Filho. Essa fidelidade divina é o alicerce sobre o qual podemos construir toda relação humana e eclesial, mesmo em meio às fragilidades que todos nós carregamos.
A grandeza de Deus cantada em cada geração: O Salmo responsorial nos convida a bendizer o nome do Senhor pelos séculos. “Uma idade conta à
outra vossas obras”, proclamamos. Essa é precisamente a experiência de Santa Mônica: sua fé, sua perseverança e suas lágrimas de intercessão atravessaram os séculos e continuam, até hoje, inspirando pais e mães que rezam por seus filhos afastados da fé. A grandeza de Deus se manifesta também nesse fio silencioso que liga uma geração à outra através do testemunho e da oração constante.
Quantas mães e pais, aqui no Rio de Janeiro e em tantas famílias que conheço, vivem hoje uma espera semelhante à de Mônica, torcendo e rezando pela conversão de um filho, pela cura de uma ferida familiar, pelo retorno de alguém querido à prática da fé? A Santa Mônica nos ensina que essa espera nunca é vazia. Ela é, na verdade, uma forma profunda de vigilância confiante, sustentada pela certeza de que Deus age mesmo quando não vemos resultados imediatos.
Vigiai, porque não sabeis a hora: O Evangelho de hoje – Mt 24,42-51 – nos apresenta o chamado central de Jesus: “Ficai atentos! porque não sabeis em que dia virá o Senhor.” Essa vigilância não é ansiedade nem medo paralisante. É, antes, uma atitude de responsabilidade e fidelidade cotidiana. Jesus usa a imagem do empregado fiel e prudente, aquele que cumpre sua missão de cuidar dos demais mesmo sem saber exatamente quando o senhor voltará.
Esse empregado fiel é reconhecido não por antecipar o momento exato da volta do Senhor, mas por permanecer fazendo o bem, cuidando dos outros, cumprindo sua missão com constância. Já o empregado mal se deixa levar pela ilusão de que “o senhor está demorando” e passa a maltratar os demais, a viver sem compromisso, sem responsabilidade, sem cuidado com o próximo.
Essa parábola nos interpela diretamente. Nossa fidelidade a Deus não se mede por grandes gestos esporádicos, mas pela constância com que vivemos o Evangelho no dia a dia, no cuidado com a família, no trabalho bem-feito, na
atenção aos mais pobres e frágeis. Vigiar, no sentido cristão, é viver cada momento presente como se fosse decisivo, porque, de fato, cada momento é oportunidade de amor e de serviço.
Mônica, modelo de vigilância perseverante: Nesse contexto, o exemplo de Santa Mônica se torna particularmente iluminador. Ela não sabia quando a conversão de Agostinho aconteceria, tampouco sabia como Deus agiria em seu coração. Mas permaneceu vigilante, orante, fiel, dia após dia, ano após ano, sem jamais abandonar a esperança. Sua vigilância não foi passiva, foi ativa, feita de oração constante, de lágrimas, de conversas, de acompanhamento paciente.
Esse é o modelo que a Igreja nos propõe hoje para nossas próprias vidas. Vivemos numa cidade que exige de nós muita vigilância diante das dificuldades sociais, da violência, das incertezas econômicas e familiares. E, ainda assim, testemunho constantemente que Deus habita esta cidade e que Ele continua agindo através de pessoas simples, fiéis, perseverantes, como Mônica foi em sua época.
Um convite à fidelidade cotidiana: A mensagem de hoje nos convida a examinar como temos vivido nossa vigilância cristã. Somos como o empregado fiel, que cuida dos outros com responsabilidade mesmo sem saber a hora exata da vinda do Senhor? Ou nos deixamos levar pelo cansaço, pela indiferença, pela sensação de que “ainda há tempo” para nos convertermos verdadeiramente?
Recordo sempre meu lema episcopal, extraído do Evangelho de João 17,21: “Ut Omnes Unum Sint”, para que todos sejam um. A vigilância cristã, quando bem vivida, gera unidade e comunhão, porque nos torna atentos às necessidades dos irmãos, disponíveis para servir, prontos para acolher. É isso que Mônica viveu intensamente, e é esse o convite que a liturgia de hoje nos faz.
Que Santa Mônica interceda por todas as famílias que hoje vivem situações de espera e sofrimento por causa de filhos afastados da fé ou de caminhos difíceis. Que ela nos ensine a perseverança confiante, a oração constante e a vigilância fiel diante da vida cotidiana.
Que o Senhor nos encontre, a cada dia, agindo como servos fiéis e prudentes, prontos para servir e para amar.
Fonte: CNBB
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