Uma resposta perigosa
25 de agosto de 2026
Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
Uma pergunta bem-feita é perigosa, porque uma resposta verdadeira muda a vida. Em Cesareia de Filipe, Jesus fez uma algo desse tipo. Depois de ouvir dos discípulos aquilo que as pessoas diziam a seu respeito, voltou-se para eles e interrogou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15).
Jesus não pergunta o que os discípulos aprenderam de seus ensinamentos. Também não lhes pede uma avaliação de sua obra. Pergunta quem eu sou para vocês.
Já escrevi anteriormente que o cristianismo é também uma religião de perguntas. Uma boa pergunta permanece aberta e acompanha a existência. A pergunta de Cesareia é assim. Pedro respondeu corretamente, mas ainda não compreendia inteiramente aquilo que havia respondido.
Por um instante, o pescador enxergou mais longe do que seus próprios olhos poderiam alcançar, pois a fé possui clarões, mas também exige amadurecimento. Há coisas que aprendemos na infância e mesmo assim levamos décadas para compreender. Há verdades no Evangelho que conhecemos desde crianças e somente muito mais tarde alcançamos em sua inteireza.
Para atingir esse tipo de compreensão carne e sangue não bastam e Jesus percebe que aconteceu alguma coisa dentro de Pedro, por isso exclama: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne e sangue que te revelaram isso, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16,17).
Pode-se estudar Jesus historicamente, reconstruir seu ambiente, conhecer a geografia da Galileia compreender o contexto político e religioso de seu tempo. Contudo, permanece um hiato incontornável se o conhecimento não se transforma em encontro.
É relativamente fácil responder sobre aquilo que os outros pensam sobre Jesus e as respostas aparecem rapidamente. João Batista. Elias. Jeremias. Um político. Um mestre de moral. Algum dos profetas que ainda viriam a existir.
Dois mil anos depois, continuamos fazendo isso. Sabemos o que os teólogos disseram sobre Cristo, o que os concílios definiram, o que os santos experimentaram, o que os exegetas escreveram. Jesus, porém, continua deslocando a pergunta. “E vós?”
O discipulado começa aqui. Chega um momento em que a fé recebida precisa se tornar fé assumida e o Credo pronunciado pela comunidade necessita adentrar a existência. Não basta dizer que Cristo é o Salvador. É preciso descobrir o que significa viver por Ele e olhar o mundo como alguém que acredita que Deus está presente.
Quem é Jesus para nós continua a pergunta de todos os tempos. Somente depois de respondê-la adequadamente compreenderemos por que vale a pena construir o Reino, socorrer os pobres, perdoar os inimigos e, quando necessário, entregar a própria vida.
Se Ele é o Cristo, o Filho do Deus vivo, então suas palavras alcançam nossa existência inteira. Porque conhecer Cristo consiste em aproximar nossa vida da verdade que confessamos.
Fonte: CNBB
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