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Setenta vezes sete: o perdão que liberta o coração

11 de setembro de 2026

Dom Anuar Battisti Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

Reflexão para o 24º Domingo do Tempo Comum, Ano A

Há uma pergunta que todos nós, em algum momento da vida, já fizemos, mesmo sem perceber: até quando devo perdoar? Até que ponto a paciência tem limite? Foi essa mesma inquietação que levou Pedro a se aproximar de Jesus, naquele episódio que hoje a liturgia nos apresenta no Evangelho de Mateus 18,21-35. Pedro pergunta, com generosidade que já parecia excessiva para os padrões da época: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” A resposta de Jesus surpreende e desconcerta: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.”

Não se trata de matemática, meus caros. Jesus não está propondo uma contabilidade do perdão, como se houvesse um limite, ainda que generoso, depois do qual poderíamos, finalmente, fechar as portas do coração. Ele está dizendo algo mais profundo: o perdão cristão não tem número. Não se mede, não se calcula, não se esgota. Ele nasce de uma lógica diferente da lógica humana, a lógica da misericórdia recebida.

Para explicar isso, Jesus conta uma parábola que merece nossa atenção com calma. Um rei perdoa a um empregado uma dívida absolutamente impagável, uma fortuna incalculável. O empregado, aliviado e livre, sai dali e encontra um companheiro que lhe devia uma quantia infinitamente menor. E o que faz? Esquece a misericórdia que acabou de receber e trata o outro com dureza, sem compaixão, sem memória do próprio perdão. É aqui que está o coração do Evangelho de hoje. O drama não é a existência da dívida do outro. O

drama é a amnésia espiritual, aquele esquecimento perigoso de que também fomos perdoados, e muito.

A primeira leitura, tirada do Livro do Eclesiástico – Eclo 27,33-28,9 –, já preparava nosso coração para essa verdade com palavras diretas e sábias: “O rancor e a raiva são coisas detestáveis.” E acrescenta algo que deveria nos fazer parar e pensar: “Perdoa a injustiça cometida por teu próximo; assim, quando orares, teus pecados serão perdoados.” Existe, portanto, uma ligação profunda entre o perdão que damos e o perdão que recebemos de Deus. Não porque Deus condicione sua misericórdia à nossa, mas porque um coração fechado ao perdão se torna incapaz de acolher a misericórdia divina. É como uma mão cerrada em punho: não consegue receber nada, porque está ocupada demais guardando a própria dor.

O Salmo responsorial nos oferece a chave para compreender tudo isso: “O Senhor é bondoso, compassivo e carinhoso.” E continua, com uma ternura que toca o coração: “Ele te perdoa toda culpa, e cura toda a tua enfermidade.” Este é o Deus que a Escritura nos revela, um Pai que não fica repetindo nossas queixas, que não guarda eternamente o rancor, que afasta de nós nossos erros tanto quanto o nascente dista do poente. Se este é o rosto de Deus, como podemos nós, seus filhos, insistir em guardar mágoas pequenas quando comparadas à imensidão do que já nos foi perdoado?

São Paulo, na segunda leitura – Rm 14,7-9 –, acrescenta uma dimensão importante para esta reflexão. Ele nos recorda que “ninguém vive para si mesmo” e que, vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor. Isso significa que nossa vida não é propriedade privada, isolada, fechada em si mesma. Vivemos em relação, em comunhão, em dependência mútua. E é justamente por isso que

o rancor guardado contra o irmão fere não apenas a relação com ele, mas fere nossa própria pertença ao Senhor, que é Senhor de todos.

Quero dizer isso com franqueza pastoral: sei que perdoar nem sempre é simples. Há feridas profundas, traições que deixam marcas, injustiças que parecem impossíveis de superar. Não estou falando de um perdão ingênuo, que finge que nada aconteceu, ou que expõe alguém a novos abusos. Estou falando do perdão que liberta o coração de quem perdoa, ainda que o processo de reconciliação externa demande tempo, prudência e, às vezes, distância. O empregado perdoado da parábola não precisava se tornar íntimo de quem lhe devia. Precisava apenas soltar o punho, deixar de sufocar o outro, permitir que a vida seguisse seu curso sem o peso da vingança.

Lembro sempre que nosso lema episcopal, “Caminhai no Senhor”, nos convida exatamente a isso: caminhar, seguir adiante, não ficar paralisados pelo peso do que nos feriram. Caminhar no Senhor é caminhar leves, sem as pedras do rancor no bolso.

Por isso, queridos amigos, ao ouvirmos hoje esta Palavra, façamos um exame sincero. Existe alguém em nossa vida a quem ainda não conseguimos perdoar de coração? Existe uma dívida antiga que insistimos em cobrar, esquecendo que nós mesmos já fomos perdoados de dívidas muito maiores? O Evangelho não nos condena por isso. Ele nos convida a olhar novamente para a cruz, onde a misericórdia de Deus se revelou sem medida, e a partir dali reaprender a perdoar.

Que esta semana seja um tempo de libertação interior. Que cada um de nós possa, com a ajuda da graça, soltar algum peso que carrega há tempo demais. O Senhor não se cansa de perdoar. Que também nós não nos cansemos

de fazer o mesmo, até setenta vezes sete, até que o perdão se torne, enfim, o modo natural do nosso coração. Caminhai no Senhor!

Setenta vezes sete: o perdão que liberta o coração | Santa Rita de Cássia – Indaiatuba