Sejamos co-responsáveis pelo caminho da salvação dos irmãos!
08 de setembro de 2026
Dom Anuar Battisti Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Dando continuidade ao itinerário litúrgico-catequético, o XXIII Domingo do Tempo Comum convida a Igreja a olhar para dentro de si mesma, aplicando a mesma lógica da cruz, a qual meditávamos no domingo anterior, ao seu dinamismo interno e às suas estruturas pastorais. Se o amadurecimento espiritual nos pede para não nos conformarmos com os critérios de poder e prestígio do mundo, a Palavra de Deus de hoje revela que a saúde missionária do Corpo de Cristo depende diretamente de como estruturamos a nossa vida comunitária, como organizamos nossos organismos pastorais e cuidamos da autenticidade das nossas relações interpessoais no ambiente eclesial.
A liturgia de hoje coloca o foco na responsabilidade mútua e na delicada missão da correção fraterna, apresentando o profeta Ezequiel como o sentinela que vigia a casa de Israel. Aplicada ao organismo vivo da Igreja, essa figura do sentinela nos ensina que a omissão diante do erro, da injustiça ou da estagnação pastoral não é virtude, mas sim uma grave falta de caridade e de zelo pelo Reino.
Para que a Igreja possa exercer sua vocação de luz para o mundo, ela precisa primeiro aprimorar a sua dinâmica interna, superando tanto o clericalismo autoritário que silencia quanto o laicato passivo que se acomoda no desinteresse. A verdadeira caridade pastoral exige a coragem da transparência, criando espaços seguros e maduros de diálogo onde a verdade seja dita com amor, salvaguardando sempre a dignidade dos batizados e promovendo uma autêntica cultura de comunhão e corresponsabilidade.
A pedagogia gradual apresentada por Jesus no Evangelho de São Mateus para lidar com o conflito — o diálogo a sós, o recurso a testemunhas e, por fim, o amparo da comunidade — constitui um verdadeiro itinerário de conversão estrutural e eclesial. Em um organismo pastoral saudável, os problemas e as divergências não devem ser varridos para debaixo do tapete ou transformados em murmuração destruidora nos corredores, mas trabalhados através de processos sinodais de escuta, discernimento e reconciliação.
Quando a Igreja aprimora seus métodos de gestão, sua capacidade de mediação interpessoal e a transparência de suas instâncias de decisão, ela testemunha que a autoridade do Evangelho não se impõe pelo domínio, mas se manifesta no serviço e na restauração dos laços fraternos rompidos. Somente uma Igreja que se deixa evangelizar e purificar internamente por essa pedagogia do cuidado adquire a autoridade moral e a sabedoria pastoral necessárias para atuar nas diversas camadas da sociedade civil.
O modo como nos relacionamos dentro das paróquias, movimentos e dioceses torna-se o protótipo e a escola de como a Igreja deve interagir com os ambientes externos, inspirando relações interculturais e intersociais marcadas pelo respeito, pela alteridade e pela busca do bem comum. Ao integrar pacificamente suas próprias diferenças internas, a comunidade cristã capacita-se para dialogar com sistemas sociais complexos, propondo uma alternativa profilática à polarização ideológica e ao descarte humano que ferem o mundo contemporâneo.
Ao proclamar que onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome Ele estará no meio deles, Jesus nos assegura que a eficácia da nossa ação pastoral não reside em estratégias puramente humanas, mas na densidade espiritual da nossa unidade. Celebremos esta Eucaristia pedindo a graça de uma conversão pastoral profunda, para que o nosso dinamismo eclesial se renove no perdão e na verdade, tornando a Igreja um organismo cada vez mais “hígido”, não rígido, para assim firmar-se pelo seu testemunho acolhedor e profético, capaz de refletir no mundo a perfeita comunhão que procede do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Fonte: CNBB
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