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Renunciar a si mesmo e tomar a Cruz!

08 de setembro de 2026

Dom Diamantino Prata de Carvalho Bispo Emérito da Campanha (MG)

O XXII Domingo do Tempo Comum nos fez compreender que seguir a Cristo exige renunciar a si mesmo e tomar a cruz, na contramão da mentalidade deste mundo para acolher a lógica de Deus. Dando continuidade a este itinerário litúrgico-catequético, o XXIII Domingo desdobra essa conversão pessoal em uma dimensão comunitária e fraterna. Se no domingo anterior aprendemos que a fé exige um posicionamento radical do coração, hoje a Palavra de Deus nos ensina que essa transformação individual não pode ser vivida no isolamento: a cruz de Cristo nos reconcilia com Deus, mas também funda uma nova forma de nos relacionarmos com os irmãos.

A liturgia de hoje aborda a difícil, porém indispensável, missão da correção fraterna e da responsabilidade mútua. O profeta Ezequiel é apresentado como um sentinela encarregado de alertar o povo, lembrando-nos de que a omissão diante do erro do próximo não é sinal de prudência, mas de falta de caridade. Amar o irmão significa cuidar da sua salvação e ter a coragem de ser voz que orienta quando a vida da comunidade está em risco. Não se trata de assumir a postura de juiz implacável ou de acusador moralista, mas de exercer o verdadeiro cuidado pastoral, guiado pela misericórdia e pelo desejo sincero de conversão e cura. É precisamente nesse horizonte que o apóstolo Paulo, na Segunda Leitura aos Romanos, sintetiza toda a lei no mandamento do amor: quem ama o próximo não lhe faz mal algum e cumpre plenamente a vontade divina.

A correção fraterna, ensinada por Jesus no Evangelho de São Mateus, é a expressão mais concreta desse amor exigente e delicado. Jesus estabelece um caminho de paciência, respeito à dignidade do outro e pedagogia gradual: primeiro o diálogo a sós, mantendo a discrição; depois a ajuda de testemunhas; e, por fim, o amparo da comunidade. O objetivo nunca é a humilhação ou a exclusão do irmão, mas a reconciliação e o resgate da comunhão perdida.

Nos tempos atuais, marcados por uma forte polarização, pela cultura do cancelamento e pelo individualismo hipertrofiado, o ensinamento do Evangelho surge como um farol profético. Em uma sociedade que oscila entre a indiferença omissa do “nada tenho a ver com isso” e o linchamento público que destrói reputações à distância, o método de Jesus propõe uma revolução nas relações humanas.

Para a Igreja e todo o seu organismo pastoral, isso significa cultivar estruturas de escuta autêntica, onde a transparência e a verdade caminhem juntas com a misericórdia, superando tanto o clericalismo autoritário quanto a convivência de fachadas. Pastoralmente, a correção fraterna nos ensina que a sinodalidade e o caminhar juntos exigem a coragem do diálogo cara a cara, salvaguardando a dignidade da pessoa e promovendo uma cultura de paz.

Para a sociedade civil, essa pedagogia do Cristo oferece uma alternativa terapêutica ao ódio das redes sociais e ao isolamento como na figura da bolha, mostrando que o verdadeiro progresso comunitário não nasce do descarte do diferente ou do pecador, mas da capacidade de restaurar os laços rompidos através da verdade dita na caridade.

Ao nos garantir que onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome Ele estará no meio deles, Jesus nos revela que a comunidade cristã é o lugar vivo da sua presença e o espaço onde o perdão reflete a autoridade do próprio céu. Celebrar esta Eucaristia nos compromete a superar tanto a indiferença individualista quanto a fofoca destruidora, substituindo-as pela coragem da verdade dita com amor. Peçamos a graça de corações dóceis e abertos, capazes de acolher a correção com humildade e de oferecê-la com profunda caridade, para que sejamos no mundo testemunhas autênticas da unidade e do perdão que procedem do próprio Deus.

Renunciar a si mesmo e tomar a Cruz! | Santa Rita de Cássia – Indaiatuba