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Quem é o filho do homem?

11 de setembro de 2026

Dom Leomar Brustolin Arcebispo de Santa Maria (RS)

Uma das imagens mais belas e decisivas do livro de Daniel aparece após a visão assustadora das quatro feras. Elas representam poderes históricos que, quando absolutizados, tornam-se violentos e assumem características “animalescos”. É justamente nesse cenário que Daniel contempla uma figura que surge “com as nuvens do céu, alguém como um filho de homem” (Dn 7,13). O contraste é fundamental: de um lado estão as feras; de outro, uma figura com aparência humana. Mas quem é esse “filho de homem”?

A interpretação dessa figura não é simples, pois, ao longo da história, ela foi compreendida de diferentes maneiras: como símbolo do povo fiel de Israel, como representação dos “santos do Altíssimo”, como figura messiânica ou ainda como um ser angélico. No horizonte original de Daniel, trata-se de um enviado celeste de Deus cuja vitória representa a vitória do povo sofredor .

Deus responde às feras com alguém que possui feições humanas. Os impérios, quando se deixam dominar pela violência, pela crueldade e pela vontade de poder, perdem sua verdadeira humanidade. O enviado de Deus, ao contrário, aparece revestido de humanidade. É como se Daniel anunciasse: quando o poder se torna fera, Deus restitui à história um rosto humano . A vitória divina não acontece pela criação de uma fera mais poderosa que as depois, mas pela superação da lógica de violência e da dominação.

O “Filho de Homem” revela, portanto, também uma maneira de exercer o poder. O verdadeiro humano é aquele que, criado à imagem de Deus, supera o puro instinto de competição e dominação e aprende a viver segundo a lógica do Criador: na liberdade, no diálogo, na compaixão, no amor e na abertura ao outro.

Ao Filho do Homem, oHomemDeus entrega “poder, honra e reino” . Esse domínio não nasce da conquista ou da imposição pela força: é um dom recebido de Deus . Ele não precisa destruir para permanecer. Seu reino acolhe “povos, tribos e línguas”; seu poder é eterno; “seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). A esperança de Daniel está justamente aqui: os impérios humanos podem parecer invencíveis, mas permanecem provisórios; somente o Reino que procede de Deus permanece para sempre.

E esse Filho do Homem é Jesus? O autor do Livro de Daniel não estava falando diretamente de Jesus de Nazaré, como se tivesse antecipado seu nome e sua história. A profecia bíblica não é simples previsão do futuro, mas uma leitura da ação de Deus na história. No contexto original, a figura do Filho do Homem expressa a intervenção divina em favor de seu povo e a esperança na derrota dos poderes que causam violência e injustiça.

Entretanto, Jesus escolheu precisamente a expressão “Filho do Homem” para falar de si mesmo. A Igreja reconhece nele a realização plena da esperança anunciada por Daniel: Jesus é o enviado definitivo do Pai, aquele em quem o Reino de Deus se faz presente e próximo. Nele compreendemos por que o Reino jamais será destruído: seu fundamento não é a força que domina, mas o amor que se entrega.

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