CNBB

Natividade de Maria: a aurora da salvação nasce em Belém de Éfrata

09 de setembro de 2026

Dom Anuar Battisti Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

Neste 8 de setembro, a Igreja celebra o nascimento da Virgem Santíssima, sinal concreto de que Deus cumpre suas promessas na pequenez da história

Caros irmãos e irmãs,

Há datas que o mundo esquece e datas que a Igreja guarda com carinho, porque nelas se revela algo essencial sobre o modo como Deus age na história. O dia 8 de setembro é uma dessas datas. Celebramos a Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria, o nascimento daquela que seria escolhida para gerar o Salvador. E a liturgia de hoje nos convida a olhar para esse acontecimento não como um simples registro biográfico, mas como parte de um projeto que Deus vinha tecendo havia séculos.

A primeira leitura – Mq 5,1-4a – nos leva a Belém de Éfrata, uma cidade pequena, quase insignificante entre os povoados de Judá. O profeta anuncia que dali sairá aquele que dominará em Israel, cuja origem vem dos dias da eternidade. É curioso como Deus escolhe sempre os lugares e as pessoas mais simples para realizar as coisas mais grandiosas. Não escolheu uma capital poderosa, mas uma pequena cidade. Não escolheu uma família de destaque, mas uma jovem chamada Maria, numa aldeia chamada Nazaré. Isso já nos ensina algo profundo: a grandeza de Deus não depende da grandeza humana. Ele age onde encontra coração disponível, ainda que esse coração esteja escondido dos olhos do mundo.

A segunda leitura, tirada da Carta aos Romanos – Rm 8,28-30 –, reforça essa certeza com palavras que consolam qualquer pessoa que atravessa dificuldades: tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus. São Paulo não está dizendo que tudo é bom, mas que Deus tem o poder de transformar até as circunstâncias mais difíceis em caminho de salvação. Foi assim com Maria. Sua vida não foi isenta de perguntas, de surpresas, de momentos de silêncio diante do mistério. Mas ela foi tecida, desde o ventre materno, para um propósito que só o tempo revelaria.

O salmo responsorial traz uma frase que toca o coração: “Sois meu apoio desde antes que eu nascesse, desde o seio maternal, o meu amparo”. Quantas vezes esquecemos que a vida de cada um de nós também começou sendo cuidada por Deus antes mesmo de vermos a luz do dia. A vida de Maria, como a nossa, foi pensada por Deus com antecedência e amor. Isso deveria nos dar uma segurança profunda, especialmente nos dias em que sentimos que caminhamos sem rumo.

Uma genealogia que fala de nós – O Evangelho de hoje, segundo Mateus – Mt 1,1-16.18-23 –, apresenta a longa genealogia de Jesus Cristo. Pode parecer, à primeira vista, uma lista cansativa de nomes difíceis. Mas há algo de belo escondido ali. Entre os antepassados de Jesus estão pessoas de vida reta e pessoas que cometeram erros graves. Estão reis fiéis e reis que se afastaram de Deus. Estão mulheres estrangeiras, como Raab e Rute, incluídas na história da salvação apesar de não pertencerem ao povo de Israel. Deus não escreve a história da redenção apenas com pessoas perfeitas. Ele escreve com pessoas reais, com suas fragilidades e suas buscas, e é exatamente aí que Maria entra, como o elo mais puro dessa longa cadeia humana.

O Evangelho ainda nos apresenta José, um homem justo que, diante de uma situação que não compreendia plenamente, escolheu confiar. O anjo lhe diz: “não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo”. Essa cena nos ensina que a fé muitas vezes exige coragem para aceitar o que não entendemos por completo. José não teve todas as respostas antes de agir. Ele confiou na palavra de Deus e seguiu adiante. Talvez seja esse o convite mais direto que a liturgia de hoje nos faz: confiar, mesmo quando o caminho ainda não está totalmente claro.

O nascimento de Maria e o nosso próprio caminho – Celebrar o nascimento de Maria é celebrar a esperança que nasce no meio da história comum. Ela não teve uma vida marcada por grandes títulos ou privilégios visíveis. Foi uma jovem simples, de uma cidade pequena, escolhida por Deus para uma missão imensa. Isso nos revela que Deus continua olhando, hoje, para pessoas comuns, para famílias comuns, para comunidades que muitas vezes se sentem pequenas diante dos desafios do mundo.

Se você atravessa um momento de incerteza, se sente que sua vida é pequena demais para fazer alguma diferença, olhe para Belém de Éfrata. Olhe para o nascimento silencioso de uma menina chamada Maria, que se tornaria a Mãe do Salvador. Deus não precisa de grandeza humana para realizar sua obra. Precisa de disponibilidade, de coração aberto, de confiança simples.

Meu lema episcopal sempre foi Caminhai no Senhor. E é esse o convite que deixo a cada um de vocês nesta festa. Caminhem com a confiança de que Deus tece a história de cada família, de cada comunidade, de cada pessoa, ainda que muitas vezes essa história pareça pequena demais para ter sentido. Assim como Maria, que nasceu numa aldeia sem grandes honras e se tornou Mãe de Deus, também nossas vidas simples podem ser instrumentos de uma graça maior.

Que a Virgem Maria, celebrada hoje em seu nascimento, interceda por todos nós, e que possamos, como José, ter a coragem de confiar mesmo quando o caminho ainda é mistério.