Jesus Cristo, ninguém e nenhuma outra obra no mundo
08 de setembro de 2026
Dom Pedro Brito Guimarães Arcebispo de Palmas (TO)
“Evangelizar, anunciando Jesus Cristo…”
… Assim começa o Objetivo Geral da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2026-2032). E é assim que deve terminar a sua missão. Parece uma frase feita. Não é. Jesus é único. “Nunca alguém falou assim” (Jo 7,46), anunciam os guardas estupefatos e encantados com Jesus . De fato, não existe ninguém e nenhuma obra no mundo, por mais perfeita, potente e impactante que seja, que possa ser comparada a Ele. E o motivo? A sua encarnação: “O cristianismo é uma religião encarnada na história” 1 . A encarnação de Jesus oferece um contraponto teológico, existencial, moral e espiritual ao relativismo, ao materialismo, ao negacionismo e ao individualismo dos desigrejados, reinantes no mundo hodierno. “A encarnação é a novidade do cristianismo, uma novidade que se revelou nos traços do rosto de Jesus e que nunca deixa de surpreender o coração humano. Não é uma ideia abstrata, mas um evento real e pessoal: o Filho de Deus feito homem” 2 . Muitos querem um Cristo sem encarnação: sem corpo, sem carne, sem sangue, sem reino, sem cruz, sem morte e sem ressurreição. Esse Jesus Cristo, porém, não existe. É inútil querer encontrá-Lo. “ Quem quiser um Cristo sem cruz acabará com a cruz sem Cristo” (Frei Raniero Cantalamessa).
Entre os atos que Jesus mais fez e as palavras que Ele mais pronunciou, aqui na terra, depois do cuidado com a vida, destaca-se o anúncio do Reino de Deus. E esta foi a primeira instrução que Jesus deu diretamente aos seus discípulos: “cumpriu-se o tempo, e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Por isto, “dizei-lhes: ‘o Reino de Deus está próximo do vós’” (Lc 10,9). Os valores do Reino – “reino eterno e universal: reino da verdade e da vida; reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz” 3 – correspondem aos mesmos desejos inscritos nos corações de todo o gênero humano: “Queremos ver Jesus” (Jo 12,21). E que assim Ele reine sobre nós, gregos, troianos e espartanos…!
Santo Agostinho chama Deus de “Beleza tão antiga e tão nova…”; e que “Tarde te amei!” Jesus é esta beleza que Santo Agostinho se encantou e pela qual se apaixonou. E para nós, Jesus é o que mesmo? Nenhuma pessoa, nenhuma criatura, ou obra humana, na face da terra, por mais poderosa que seja, poderá sobrepor, desdizer ou contradizer o que é Jesus Cristo. Mesmo que o mundo fosse tão bom e estivesse tão bem, nada se igualaria ao cristianismo. Ainda mais como está o mundo atual. Parafraseando o que disseram os mártires de Abitene: “sem Jesus e sem o cristianismo não podemos viver”. Já esquecemos que quando Jesus morreu o véu do Templo “ a escuridão cobriu a terra, o sol parou de brilhar, rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu, as rochas se partiram e os túmulos se abriram (Mt 27,51; Mc 15,38; Lc 44-45)? Queremos que aconteçam tudo isto novamente?
Jesus Cristo é a das artes de Deus, a mais bela. O ator Antonio Banderas no encontro dos artistas com o Papa Leão XIV, em Madri, disse textualmente: “A relação entre a Igreja Católica e a arte não só tem sido frutífera: tem sido decisiva. Não temos receio de errar ao afirmar que a Igreja foi a maior produtora de arte na história da humanidade. No cerne desse impulso criativo está aquele que transcende séculos, estilos e culturas, e que sem dúvida tem sido a figura mais representada na história da arte: Jesus Cristo. O grande protagonista da história da vida. Em todas as artes, Cristo é uma presença constante. Não como uma imagem repetida, mas como um ícone de paz, amor e sacrifício, envolto em um mistério inexaurível” (…). “Estou aqui hoje confessando ter sido vítima do feitiço de Deus” 4 . Se não existe outra obra mais perfeita do que a de Jesus, não se entende como um contingente numeroso da atual sociedade insiste em crer e em seguir a um “deus” petrificado, imóvel, calado e que não dá nenhum sinal de que está preocupado e interessado com o destino da humanidade. Um “deus” que não se encarna, não nasce, não vive, não morre e nem ressuscita e não serve para muitas coisas.
Qual é então a novidade de tal religião e de tal “deus” , quando comparada ao cristianismo? O ponto essencial onde o cristianismo se diferencia das outras religiões é a encarnação do Verbo de Deus: não é o homem que procura Deus as apalpadelas, mas é Deus que vem em pessoa a falar de Si ao homem e mostra-lhe o caminho 5 . Nenhuma outra religião, por melhor que seja, tem um Deus encarnado na instabilidade do tempo. Em outras experiências religiosas eu preciso subir, escalar montanhas, devorar quilômetros, às apalpadelas, para chegar e me encontrar com Deus. A novidade do cristianismo está basicamente aqui: o cristianismo não é um conjunto de ideias, de regras ou de doutrina, mas a própria Pessoa de Jesus Cristo. A essência dessa novidade reside na humanidade de Jesus. Frutos desta encarnação, sua voz está perpetuada nos evangelhos e seu corpo e seu sangue estão perpetuados na eucaristia.
“Como é doce a recordação de Jesus, fonte de verdadeira alegria do coração” 6 . Como podemos chegar e se inserir neste Cristo em seu Mistério que embeleza, encanta e enfeitiça? Pela Mistagogia da Iniciação à Vida Cristã, tão necessária e tão atual. “Iniciação” aqui não é começo, é fim; é inserção e imersão no mistério de Cristo. É mais fim do que começo. Jesus Cristo é este Homem Novo (Ef 4,24; Cl 3,10), verdadeira Pedra Angular (Ef 2,20). E aquele que faz novas todas as coisas (Ap 21,5). A Catequese de Iniciação à Vida Cristão, de inspiração catecumenal, tem como missão a transmissão da fé em Jesus Cristo hoje e fazer novas todos nas comunidades eclesiais, revestidas dele e nele.
Portanto, com este pequeno e simples artigo, convido todos os fiéis das minhas duas dioceses a se inserirem no Mistério de Jesus Cristo, por meio do processo de Iniciação à Vida Cristã. Muito agradecido!
Fonte: CNBB
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