Instituições feridas
11 de setembro de 2026
Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo de Belo Horizonte (MG)
Afirma-se que uma nação precisa ter instituições fortes, capazes de alavancar o desenvolvimento integral, sempre preservando a moralidade, especialmente na gestão pública, e o respeito às leis e ao bem comum. Quando as instituições são fragilizadas, por diversas razões, todo o tecido social sofre. Não se consegue exercer adequadamente as responsabilidades políticas, nem garantir a sustentação de princípios culturais que alicerçam o respeito à dignidade de todos os seres humanos. As consequências são desastrosas: a multiplicação de cenários de pobreza e violência, o crescimento de discriminações e exclusões são alguns prejuízos facilmente constatáveis. Essas situações expressam também golpes desferidos contra instituições, motivados por questões pessoais e políticas. Há, pois, o desafio de se conquistar adequada compreensão e juízo crítico a respeito das próprias responsabilidades na preservação das instituições.
Pode-se elencar incontáveis razões que produzem a fragilização das instituições: da falta de ética, em diferentes níveis e proporções, até o cinismo de se dizer uma coisa e fazer valer outra. Não menos relevante é a irresponsabilidade de se misturar interesses particulares e cartoriais com a gestão do erário público. Trata-se de um assalto violento que fere a verdade e a dignidade humana. Aqueles que não exercem com zelo as suas responsabilidades são os que fragilizam as instituições, condenando-as à superficialidade ou à morte. Conta muito, pois, a competência humana, que precisa contemplar o domínio de técnicas indispensáveis para que as instituições cumpram com sua função social. Além disso, a competência humana vincula-se à fidelidade a princípios éticos. Preocupa, pois, quando a credibilidade passa a ser rifada e os escândalos sinalizam feridas no sagrado núcleo identitário das instituições.
Fica evidente a urgência de se investir na credibilidade, o que significa trabalhar para que todos busquem exercer suas responsabilidades com qualidade, na fidelidade à missão de cada contexto institucional. Lamentável e perversa é a submissão do ser humano aos interesses pecuniários, com seduções infernais que destroem a honestidade, o nobre propósito de buscar ser credível, livre de mesquinhez e de soberba. No cuidado com as instituições, vale revisitar as indicações da Carta Encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV. O investimento na cura e no fortalecimento de contextos institucionais pode começar pelo reconhecimento de limites e, ao mesmo tempo, da grandeza do ser humano. Afirma o Papa: a relação com a vida parece estar hoje em crise, por se apresentar tudo como limite – incapacidade, doença, velhice, sofrimento, vulnerabilidade – e não como espaço onde o ser humano amadurece e se abre à relação. Faz-se necessária uma visão da realidade iluminada pela fé, com uma interpretação que indique caminhos na contramão da soberba e da mesquinhez.
A fé cristã apresenta a finitude como caminho que contribui para alimentar o ajustado entendimento sobre a real grandeza do ser humano, à luz da relação original e fundamental com Deus. O orgulho e a soberba, que neutralizam a necessária e sincera preocupação com a necessidade dos semelhantes, estão, pois, na contramão de um olhar para a finitude iluminado pela fé cristã. Sem essa luminosidade, corre-se o risco de um distanciamento da própria realidade, com camuflagens e justificativas que empanam os limites concretos da vida, na doença ou na morte, no sentimento de impotência ou de fracasso. Há de se buscar sempre a sabedoria que liberta o ser humano dessas camuflagens e justificativas, para que não se negocie a insubstituível moralidade. Assim, pode-se também evitar a fragilização das instituições, causada pela falta de decoro e de ética. Os golpes que incidem nos contextos institucionais se ancoram no ilusório desejo de não se passar por provações e sofrimentos inevitáveis. Um desejo que se desdobra na ilimitada busca por riqueza e poder, abrindo caminho para a corrupção moral que ameaça a vida e leva à desumanidade, conforme diz o Papa Leão XIV. A finitude, ensina o Papa, quando é acolhida na verdade, não empobrece o ser humano, mas abre-o ao reconhecimento do rosto de Deus e do semelhante.
Desconsiderar os limites e a própria finitude, tentando superá-los a partir da desmedida ambição, cria contextos de manipulações e de artimanhas políticas que atingem frontalmente as instituições, ora por omissão, ora por imposição. Cenários em que prevalecem as lógicas perversas alinhadas a interesses partidários que buscam desacreditar, maldosamente, o que é credível, instaurando, assim, o caos. Sem reconhecer os limites e a finitude humana, negocia-se a honestidade em favor de opções político-partidárias. O resultado é nefasto, merecendo uma reação daqueles que se comprometem com a bondade. O fortalecimento das instituições depende de pessoas com visão lúcida, dedicadas à promoção do bem comum, capazes de exercer a cidadania adequadamente. A sociedade não pode se contentar com a mediocridade daqueles que, de modo incoerente, dizem querer edificar o bem, mas buscam validar-se assentados nos escombros dos outros. A inteireza das instituições se conquista com a fidelidade e a coerência de todos que as integram, chamados a agir alinhados à identidade e à missão de seus respectivos contextos institucionais. Esse agir coerente e fiel é capaz de recuperar instituições feridas, ajudando a construir um novo tempo na sociedade brasileira.
Fonte: CNBB
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