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Construir a vida fraterna

03 de setembro de 2026

Dom Rodolfo Luís Weber Arcebispo de Passo Fundo (RS)

“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”, afirma Jesus. A vida fraterna entre as pessoas próximas, entre instituições e nações é um sinal claro da presença de Deus. Esta condição se concretiza na medida em que há um contínuo esforço de corrigir o que há de errado, o reconhecimento dos pecados, conceder o perdão e restabelecer as relações abaladas ou rompidas. “De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus”. O biblista R. Fabris comentando este ensinamento de Jesus afirma: “O acento desta parábola evangélica não é tanto sobre a oração comunitária quanto sobre a concórdia, literalmente o grego disse “sinfonia” ou “sintonização” reencontrada. Esta dá eficácia à oração dos irmãos (…) Uma comunidade reconciliada e orante é o lugar da definitiva presença de Deus revelando-se como Salvador e Senhor em Jesus”.

A Liturgia da Palavra, deste primeiro domingo do Mês da Bíblia (Ezequiel 33,7-9, Salmo 94 (95), Romanos 13,8-10 e Mateus 18,15-20), coloca os leitores e ouvintes da Palavra de Deus diante do tema da correção fraterna que é o meio mais eficaz para restabelecer a fraternidade e a unidade. A Bíblia não esconde os pecados dos grandes personagens bíblicos, nem a necessidade de serem corrigidos. Eles sabiam da vontade de Deus, porém eram falíveis e não realizavam o que sabiam. Só saber não garante um agir ético. Estes personagens deixaram-se corrigir e por isso puderam levar a bom termo a sua missão. Recordemos alguns exemplos: Moisés é corrigido por Jetro por causa da metodologia de atendimento do povo; Davi é repreendido por Natã depois da morte de Urias; o profeta Elias é corrigido depois de usar métodos violentos para anunciar o verdadeiro Deus; Pedro várias vezes teve que rever seus posicionamentos e o mesmo acontece com São Paulo. Por deixarem-se corrigir restabeleceram a harmonia e puderam continuar a sua missão.

Jesus apresenta uma situação aos discípulos e propõe uma metodologia inspirada no amor ao próximo. “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público”.

O desejo de corrigir o “irmão que pecar contra ti” não pode ser uma simples reação à ofensa que se foi vítima. A causa mais nobre para corrigir é o amor ao irmão. Santo Agostinho comenta: “Aquele que te ofendeu, ao ofender-te, causou em si mesmo uma ferida grave, e não te preocupas tu pela ferida de um teu irmão? (…) Deves esquecer a ofensa que recebeste, mas não a ferida de um teu irmão”. O profeta Ezequiel ensina se alguém errou e não for advertido, quem não adverte torna-se corresponsável pela morte do irmão.

Jesus insiste na metodologia da correção fraterna. Antes de expor alguém em público ou excluir, se faz necessário preservar a pessoa que pecou. Sugere uma progressão de medidas – falar pessoalmente, assessorar-se de testemunhas, envolver a comunidade – que permitem fazer um processo curativo e de reconciliação. Jesus também é realista, admitindo que tudo isto não garante que o pecador se arrependa, mas a parte ofendida não ficou indiferente, pois desejou ajudar e salvar o irmão.

Os ensinamentos da Carta ao Romanos são sábios na construção da “sinfonia” entre as pessoas. “Irmãos: Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei. (…) O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei”.

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