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Comunhão rompida e perdão

08 de setembro de 2026

Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

O Evangelho de Mateus 18,15-20 começa com uma situação bastante comum, onde um irmão pecou contra outro. No pecado alguma coisa se quebra e sua causa é uma palavra, um gesto, um desejo não atendidos. Jesus não ignora essa ferida, mas também não permite que se transforme em escândalo. Sua primeira recomendação é que vás “corrigi-lo a sós”.

O caminho indicado por Jesus começa antes que a comunidade seja envolvida e s que a reputação seja colocada em risco; dois irmãos devem encontrar-se face a face. O Evangelho preserva, desse modo, a verdade e a dignidade daquele que errou.

Duas pessoas diante uma da outra, entre elas coisas que precisam ser ditas. Coragem de falar e a humildade para escutar. A correção fraterna nasce nesse limiar difícil em que a verdade precisa caminhar junto com a caridade e “Se ele te ouvir, terás ganho o teu irmão”. O objetivo, portanto, não é vencer uma discussão, é ganhar um irmão.

Quem corrige segundo o Evangelho não procura provar que estava certo, humilhar quem falhou ou obter reparação para o próprio orgulho. Procura recuperar uma relação ameaçada, pois a verdade cristã não se satisfaz quando o culpado é desmascarado; alcança sua finalidade quando a fraternidade é reconstruída. Uma espécie de economia da misericórdia onde Jesus pede que se faça o mínimo de exposição para alcançar o máximo de reconciliação.

O movimento cresce lentamente. O problema vai sendo ampliado apenas quando a reconciliação não acontece. Quanto mais delicada a ferida, maior deve ser a prudência de quem procura tratá-la.

Percebe-se também que ninguém deveria carregar sozinho determinados conflitos. Quando o diálogo entre dois se torna impossível, outras pessoas são convocadas. Sua presença serve para introduzir discernimento onde a paixão poderia obscurecer a verdade e não para formar um grupo contra alguém. A testemunha impede que a mágoa de um se transforme em juízo contra o outro. E, apenas “Se ele não vos ouvir, dize-o à Igreja.”

Agora, o conflito deixa de pertencer aos indivíduos e alcança a comunidade, porque também a comunhão possui responsabilidade. O catolicismo não conhece uma fé inteiramente privada. Nossas rupturas ferem o corpo ao qual pertencemos e a comunidade não é somente lugar de culto, é também espaço de discernimento, responsabilidade e reconciliação.

“Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja para ti como um pagão ou um cobrador de impostos”! Uma expressão dura, se lida isoladamente. Entretanto, no próprio Evangelho de Mateus, Jesus aproxima-se e dos publicanos e daqueles considerados proscritos. Ele senta-se à mesa com eles, chama Mateus e é acusado de acolher pecadores.

A frase, portanto, não autoriza o ódio. Indica que a comunhão foi objetivamente ferida e que já não pode ser disfarçada, pois a caridade cristã possui misericórdia, mas também busca objetividade. Não chama de comunhão aquilo que já se tornou afronta e rompimento da própria comunhão.

É nesse contexto que aparecem as palavras “ligar” e “desligar”. A comunidade recebe uma responsabilidade de discernir, reconciliar, estabelecer limites, reconhecer aquilo que constrói ou destrói a comunhão. Então o texto muda suavemente de ares.

Depois do pecado, da correção, das testemunhas e do discernimento comunitário, Jesus fala de oração, e diz que “Se dois de vós estiverem de acordo, na terra, sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus.”

O texto que começou com dois irmãos separados por uma ofensa, aproxima-se da conclusão falando o que acontece quando os discípulos se colocam de acordo diante de Deus. Nos levando a compreender que Jesus não está apenas ensinando um procedimento para solucionar conflitos, Ele está mostrando como uma comunidade ferida pode reencontrar a presença de Deus.

A presença de Jesus transforma então o sentido da correção fraterna. Já não estamos simplesmente diante daquele que errou. Estamos diante daquele que errou na presença de Cristo.

Mateus 18,15-20 apresenta, assim, uma pequena liturgia da reconciliação. Começa com uma ferida e termina com uma vida em presença de algo maior. Entre uma coisa e outra existem palavra, escuta, testemunho, comunidade, discernimento e oração. Uma fraternidade que quase se rompeu e que, ao procurar novamente o caminho da comunhão, descobre que Cristo nunca se ausentou.