CNBB

A graça ilimitada do perdão!

08 de setembro de 2026

Dom Diamantino Prata de Carvalho Bispo Emérito da Campanha (MG)

O XXIII Domingo do Tempo Comum nos ensinou que a conversão pessoal e a vivência da cruz exigem a coragem da responsabilidade mútua, manifestada na verdade e na delicadeza da correção fraterna. Dando continuidade a esse itinerário litúrgico-catequético, o XXIV Domingo dá o passo decisivo que sustenta todo a vida comunitária: a passagem do dever da correção para a graça ilimitada do perdão.

Se no domingo anterior a Palavra nos mostrou como restaurar o irmão que errou através do diálogo sincero, hoje Jesus nos revela a medida interior que deve animar qualquer tentativa de reconciliação, desarmando o nosso coração de toda contabilidade humana. A liturgia se abre com a provocante pergunta de Pedro, que tenta estabelecer um limite razoável para a paciência fraterna: “Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”

Sete, na tradição bíblica, já representava a plenitude e a generosidade máxima. No entanto, a resposta de Jesus rompe com as nossas categorias lógicas e revela a verdadeira medida do Reino: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Com essa expressão, o Senhor não nos pede para contar 490 vezes, mas para abandonar de vez a calculadora do ressentimento, assumindo um estilo de vida onde o perdão não é um evento excepcional, mas a atitude permanente do discípulo.

A parábola do servo impiedoso expõe a contradição trágica de quem deseja receber a misericórdia de Deus, mas se recusa a oferecê-la ao semelhante. O rei da parábola perdoa uma dívida incalculável, equivalente a toneladas de ouro, algo absolutamente impossível de ser pago pelo servo. Trata-se da imagem da nossa própria condição diante do Pai: fomos resgatados de uma dívida infinita pela entrega gratuita do Filho na cruz. Contudo, aquele mesmo servo, recém-saído da experiência do perdão, encontra um companheiro que lhe deve uma quantia irrisória e o esgana, exigindo o pagamento imediato.

O texto sagrado nos alerta que a incapacidade de perdoar o irmão anula a eficiência do perdão divino em nós, não porque Deus retire a sua graça, mas porque um coração endurecido e vingativo se torna incapaz de acolher o amor de Deus. Esta mensagem atinge o centro das nossas feridas contemporâneas, trazendo luzes urgentes para a Igreja e para a sociedade. Em um mundo marcado pelo cultivo da mágoa, pela mercantilização do afeto e pela perpetuação de vinganças históricas, o perdão cristão surge como a única força capaz de interromper as espirais de violência.

Na vida pastoral e eclesial, a parábola nos adverte contra o risco de nos tornarmos uma comunidade de rígidos cobradores, esquecidos de que toda a nossa autoridade e beleza nascem da gratuidade do perdão que primeiro recebemos. Para a sociedade civil, ensina que a justiça sem misericórdia se degrada em crueldade e que

a verdadeira reconstrução social exige homens e mulheres capazes de curar o passado sem transformar a memória em um tribunal perpétuo.

Ao nos reunirmos ao redor do altar para celebrar o Sacrifício no qual o Sangue de Cristo é derramado “para o perdão dos pecados”, somos chamados a examinar de perto as nossas próprias dívidas e ressentimentos. Não podemos rezar o Pai-Nosso pedindo para sermos perdoados na mesma medida em que perdoamos, se guardamos no peito o veneno da vingança. Peçamos ao Senhor a graça de um coração verdadeiramente remido e livre, capaz de perdoar de todo o coração, para que a nossa vida comunitária seja no mundo o sinal visível de que o amor de Deus é infinitamente maior do que todas as nossas fraquezas.