CNBB

A graça do perdão ilimitado!

08 de setembro de 2026

Dom Antônio Carlos Altieri Arcebispo Emérito de Passo Fundo (RS)

A liturgia deste XXIV Domingo do Tempo Comum nos apresenta o sustentáculo espiritual indispensável para que possamos perseverar na missão de curar e educar sem nos deixarmos consumir pelo esgotamento ou pela amargura. Se no XXIII Domingo fomos desafiados a atuar como sentinelas da compaixão nas complexas esferas da saúde e da educação — enfrentando as disparidades entre o público, o privado e o filantrópico —, a Palavra de Deus – Mt 18,21-35 –, hoje, revela que a nossa capacidade de servir e humanizar tais ambientes depende visceralmente da nossa experiência diária com a graça do perdão ilimitado.

A pergunta que o apóstolo Pedro dirige a Jesus reflete a lógica contábil e o desgaste natural de quem lida constantemente com os limites e as falhas humanas: “Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” Nos corredores de um hospital, nas salas de aula ou nas mesas de gestão institucional, a repetição dos erros, a escassez de reconhecimento, a ingratidão e as injustiças do sistema, do mundo corporativista, frequentemente nos levam a estabelecer limites para a nossa paciência e doação. No entanto, Jesus responde subvertendo a lógica utilitarista: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. O Senhor não nos exige um cálculo aritmético impossível, mas nos convida a romper com a lógica da cobrança calculista, adotando uma postura de gratuidade capaz de renovar diariamente as nossas forças.

A parábola do servo impiedoso traz uma luz penetrante para o cotidiano dos profissionais e agentes pastorais da saúde e da educação. O rei que perdoa uma dívida astronômica e impagável representa a misericórdia de Deus, que nos resgatou infinitamente em Cristo antes de qualquer mérito nosso. Contudo, aquele mesmo servo, recém-aliviado de seu fardo, sufoca um companheiro por causa de uma quantia irrisória. Quando nos esquecemos da imensidão da graça que nos sustenta, corremos o risco de nos tornarmos administradores rígidos, educadores desencantados ou simples profissionais caducos e enrijecidos, que cobram da sociedade, dos alunos, dos doentes ou dos colegas de trabalho aquilo que nós mesmos só recebemos por pura gratuidade divina. A incapacidade de perdoar e de recomeçar gera o esgotamento da alma e a indiferença funcional.

O perdão “70 x 7” é o verdadeiro método de ensino, cura e gestão contra o burnout espiritual e profissional nas estruturas de cuidado, ensino e administração. Perdoar, nesses ambientes, não significa condescender com a má conduta, com o sucateamento ou com a injustiça social, mas libertar o coração do ressentimento e do cinismo que paralisam a vocação. Uma instituição educativa ou hospitalar que se deixa modelar pelo Evangelho e hoje por essa parábola, torna-se um ambiente de reconciliação, onde o erro é corrigido com pedagogia fraterna e a fragilidade do paciente ou do estudante é acolhida sem condenação. Quando médicos, professores e gestores reaprendem a olhar para o outro a partir da misericórdia que eles próprios receberam, a rotina de trabalho deixa de ser uma carga sufocante para se tornar um espaço de santificação e humanização.

Além disso, a prática do perdão sem limites desarma as lógicas de cobrança e rivalidade que tantas vezes envenenam as relações entre os setores público, privado e filantrópico. Ao invés de alimentar a cultura da acusação mútua e da transferência de culpas pelo fracasso social, a comunidade cristã insere nesses ambientes o germe da cooperação e da paciência histórica. O perdão cristão abre caminho para que a justiça se realize não como vingança ou punição, mas como restauração da dignidade de todos os envolvidos no processo do cuidar e do ensinar.

Ao celebrarmos esta Eucaristia, o próprio Sacrifício de Cristo que nos perdoa e restaura sem cessar, entreguemos no altar do Senhor as nossas dores, o cansaço das nossas jornadas e as decepções acumuladas no exercício do nosso trabalho e da nossa missão pastoral. Peçamos ao Senhor a graça de corações livres de toda mágoa, capazes de perdoar e recomeçar sempre, para que a nossa presença nos hospitais, escolas, creches e postos de saúde continue a ser um sinal vivo de que a misericórdia de Deus é sem fim e que o amor tudo suporta e renova, trazendo novo vigor e expandindo perspectivas rumo a novos horizontes.