
13º Seminário de Comunicação Social reúne comunicadores no Rio e termina com concerto de Monsenhor Marco Frisina
24 de agosto de 2026
Durante quatro dias, comunicadores, pesquisadores e profissionais de diferentes áreas se reuniram o Centro de Estudos do Sumaré, no Rio de Janeiro, para participar do 13º Seminário de Comunicação Social. Realizado de 18 a 21 de agosto, o encontro teve como tema “Narrativas imersivas e confiança pública: desafios da comunicação humana entre transmídia, IA e desinformação” e reuniu cerca de 120 participantes.
Idealizado pelo padre Arnaldo Rodrigues, presbítero da arquidiocese do Rio de Janeiro, assessor de Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e professor, o Seminário promoveu conferências e debates sobre temas que já fazem parte da rotina de quem comunica: desinformação, inteligência artificial, segurança digital, comunicação de impacto, narrativas, identidade institucional e cultura.
Para o padre Arnaldo, o encontro mantém uma tradição de reunir comunicadores, religiosos, profissionais e pesquisadores de diferentes lugares e áreas do conhecimento.
“O Seminário de Comunicação mantém a tradição de reunir comunicadores da Diocese, congregações religiosas e de todo o Brasil. A cada ano, reunimos profissionais, acadêmicos e técnicos do Brasil e do exterior para dar formação e colaborar com o conhecimento dos nossos comunicadores. Além da experiência também do contato, da fraternidade, de estar juntos, de refletir e compartilhar ideias”, afirmou.
A diversidade dos convidados marcou a programação. Vieram especialistas da universidade, do poder público, da comunicação, da segurança, da moda, do samba e da Igreja. Os assuntos foram diferentes, mas algumas questões retornaram ao longo dos quatro dias: como construir confiança? Como utilizar as novas tecnologias sem abrir mão das relações humanas? E o que significa evangelizar em um ambiente cada vez mais digital?
A abertura do Seminário foi marcada pela presença do cardeal Orani João Tempesta. Ao acolher os participantes, o arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) chamou a atenção para a relação da Igreja com as novas tecnologias.
O cardeal defendeu um olhar de esperança, mas sem ingenuidade. E deixou uma frase que acompanhou as discussões dos dias seguintes: “Não podemos confundir viralização com evangelização”.
A observação trouxe para o centro do debate uma questão presente no cotidiano das redes sociais. Alcance e engajamento são importantes, mas não são suficientes para medir a qualidade de uma comunicação. Uma publicação pode alcançar milhares de pessoas e, ainda assim, não produzir proximidade, vínculo ou transformação.
Foi nesse espaço entre o alcance tecnológico e o encontro humano que se desenvolveu boa parte da programação.
O paradoxo apareceu na conferência do professor Luís Rodrigues: “Eu não confio, mas eu uso”. A frase resumiu a relação de muitas pessoas com as ferramentas de inteligência artificial.
Usamos sistemas que nem sempre compreendemos completamente, aceitamos termos e condições que não lemos e fornecemos informações sem saber exatamente como serão utilizadas. O uso cresce rapidamente, enquanto a confiança nem sempre acompanha esse crescimento.
A discussão, porém, não se limitou aos riscos tecnológicos. O ponto levantado foi a diferença entre usar uma ferramenta e delegar a ela aquilo que pertence às relações humanas.
A confiança se constrói com tempo. Nasce do convívio, da proximidade e da experiência de conhecer o outro. Nenhuma resposta automática, por mais bem elaborada que seja, substitui por si só esse processo.
A conferência seguinte, conduzida pelo professor Gilberto Mendes, da PUC-Rio, aprofundou a questão a partir das narrativas imersivas e da comunicação multissensorial. Comunicar, nessa perspectiva, não significa apenas transmitir uma informação. É preciso considerar a realidade de quem recebe a mensagem, conhecer contextos e criar condições para um encontro.
A mesma atenção às pessoas apareceu em outras conferências. Gislene Isquierdo abordou a comunicação de impacto e os recursos da oratória. Welinton Rodrigues apresentou ferramentas e cuidados relacionados à pesquisa, à segurança digital e àdesinformação. Luciana Pereira tratou da identidade, da imagem e da preparação de quem fala em nome de uma instituição.
Na conferência de Natalia Louise, da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), o público foi levado aos bastidores da construção da narrativa do Carnaval. Por trás de um desfile de poucas horas existe um trabalho que atravessa o ano inteiro e envolve comunidades, artistas e profissionais. A comunicação, também ali, nasce de pessoas e histórias que nem sempre aparecem quando o espetáculo chega à Avenida.
A mesa redonda de encerramento levou o debate para uma dimensão ainda mais ampla. Entre as reflexões apresentadas, esteve a capacidade humana de criar, entendida como uma das características que aproximam a pessoa de Deus.
O ato de criar, o “eu criar”, não pode ser simplesmente substituído. A tecnologia pode auxiliar, ampliar possibilidades e oferecer novas ferramentas, mas permanece a pergunta sobre o lugar da pessoa diante daquilo que ela própria criou.
Outro ponto forte foi a reflexão sobre os limites. Eles não aparecem apenas como deficiência ou algo a ser eliminado. O limite também pode ser lugar de revelação. É nele que a pessoa reconhece que não basta a si mesma e que precisa de Deus e dos outros.
Essa ideia trouxe uma provocação para o debate sobre tecnologia. Se tudo pode ser resolvido por uma ferramenta, o risco é imaginar que não precisamos mais de ninguém. A busca por autonomia absoluta pode terminar em isolamento.
Para os comunicadores da Igreja, a conclusão apontada durante a mesa foi clara: não basta estar presente nas plataformas. É preciso comunicar a partir do testemunho, da interioridade e de relações reais. No fim, não se trata apenas de comunicar. Trata-se de evangelizar.
Foi nesse contexto que o padre Arnaldo Rodrigues utilizou uma imagem para falar sobre a missão da Igreja. Segundo ele, a Igreja é como uma “sala de vidro que coloca luz”. Sua presença não é simplesmente para recriminar, mas para redimir e iluminar.
Também apareceu a importância da continuidade. A Igreja não é formada por indivíduos isolados. Cada pessoa pertence a uma história, a um corpo e a uma comunidade.
A programação de encerramento incluiu a entrega do Prêmio São Paulo VI de Comunicação, concedido à irmã Maria Nilza Pereira da Silva e ao jornalista Fabiano Fachini.
Consagrada do Instituto Secular das Irmãs de Maria de Schoenstatt, Irmã Nilza é graduada em Pedagogia, Teologia e Jornalismo, mestre em Filosofia da Linguagem e doutoranda em Teologia. Sua trajetória inclui a assessoria nacional de Comunicação do Movimento Apostólico de Schoenstatt e trabalhos de formação e espiritualidade na Pastoral da Comunicação. É autora do livro A Vocação do Comunicador Católico – Teologia, Espiritualidade e Missão.
Fabiano Fachini é jornalista e atua há mais de 20 anos em diferentes áreas da comunicação. Com experiência em assessoria de imprensa, jornalismo, rádio, televisão e mídias digitais, trabalha atualmente como consultor de marketing e estrategista digital, além de atuar na formação de equipes e na comunicação católica.
A sexta-feira começou com a Santa Missa presidida pelo cardeal Orani João Tempesta. Em sua homilia, o arcebispo falou sobre uma sociedade marcada por divisões, dispersões e conflitos e recordou a responsabilidade da comunicação cristã na construção da unidade.
Na conclusão do Seminário, ele retomou uma imagem utilizada pela manhã. Pedras de cores e formas diferentes podem ser reunidas para formar um mosaico. Pedaços distintos de vidro podem formar um vitral.
A comparação ajudou a resumir a proposta deixada aos participantes: “A nossa missão é essa: é unir e não segregar”.
O encontro também teve momentos fora do auditório. Na quinta-feira, os participantes visitaram o Cristo Redentor e viveram um momento de convivência.
O encerramento aconteceu com o Concerto pela Paz, conduzido por Monsenhor Marco Frisina, na Igreja da PUC-Rio. Para o padre Arnaldo Rodrigues, a presença da música ajudou a expressar também a proposta que atravessou os quatro dias do encontro.
“Tivemos muitos momentos importantes, que concluíram com o Concerto pela Paz, do Monsenhor Marco Frisina, onde a música também se mostrou presente como agregadora e, de fato, uma presença para fechar o Seminário de Comunicação, levando realmente a uma comunicação humana e de paz”, destacou.
Ao final dos quatro dias, ficaram muitas questões para quem trabalha com comunicação. A inteligência artificial continuará se desenvolvendo, as plataformas vão mudar e novas ferramentas surgirão. Mas o Seminário insistiu em um ponto que atravessou as conferências: comunicar não é apenas produzir e distribuir conteúdo.
Para a Igreja, permanece o desafio de usar bem as ferramentas disponíveis sem esquecer quem está do outro lado da tela. Construir confiança continua exigindo tempo, presença e relações. E evangelizar continua sendo mais do que alcançar pessoas: é aproximar, iluminar e ajudar a construir comunhão.
Fonte: CNBB
Ver notícia oficial